terça-feira, 3 de setembro de 2019

Parrilla para variar

Quem sai aos seus não diz "Não te avisei!"


Quem me ensinou a assar churrasco foi minha mãe, se bem que não era churrasco propriamente, porque ela gostava mesmo de Xixo e Galeto. Nessa época, eu devia ter entre 10 e 12 anos e lembro dela virando aquele monte de espetos e alternando entre as alturas da churrasqueira, lembro mais do desgraçado do ventilador FAET, que ficava no lado do respiro e era ligado de vez em quando para aumentar o braseiro, no qual tranquei meu dedo na tomada e tomei um dos maiores choques da minha vida.

Sinceramente, acho que comecei a acompanhar sua lida nos domingos porque naquela época o coração de galinha era vendido a preço de filé e eu adorava, mas só "ajudando" tinha direito a voz - voto só bem mais tarde.... Eu também ajudava a montar os espetos, pondo o frango marinado durante a noite entre pedaços de bacon e sempre reclamando que não tinha coraçãozinho, assim aumentavam as chances no domingo seguinte. Não havia grande segredo, apenas tempero simples de sal, pimenta preta, cebola e um pouco de vinagre de vinho branco, quando tinha, sálvia fresca. Não sei se ia alho, talvez não, porque a mãe nunca gostou muito desse tempero. Seu toque especial era esfregar um tablete de margarina nos pedaços de Galeto que estavam quase prontos e os colocar perto do fogo para "pururucar".

Adorava mesmo o Xixo, que para ela era uma receita árabe, mas há  controvérsias. Bem depois, já nos anos 80, quando ela quase não se aventurava mais na churrasqueira, se íamos a uma churrascaria, ela qainda pedia Xixo, mas já era raro encontrar o fizesse, pois mundo estava dominado pelo espeto corrido de mal feito.

Vez ou outra lembro dela e em sua homenagem faço um Xixo da forma como ela gostava: espetar alternadamente pedaços de cebola, pimentão e tomate com todos os tipos de carne e linguiça cortados em pedaços quase graúdos. Não vou me estender muito nestas coisas memoráveis - como a salada de batata da minha tia, que levava quase duas horas e da qual eu também era o provador oficial - porque minha intenção aqui, é conversar sobre a Parrilla, a churrasqueira da banda oriental, mas é fato que desde essa época eu esgrimo com espetos e me defendo com grelhas assando até ovos, mas esta já seria outra estória, então, antes de entrar no tema e contar desse último projeto, vou falar um pouco de churrasco e de monotonia, os motivos pelos quais tive que assar meu bairrismo e desistir das churrasqueiras.


É devagar que se enche o papo


Primeiro o fogo. Use bastante carvão, no mínimo 3:1 em relação ao peso da carne e não coloque tudo de uma vez, claro! Eu inicio com um saco (ou meio se for pouca carne) de pé dentro da churrasqueira de pedras aqui de casa, rasgo em cima e despejo um copo de álcool dentro (não te enlouquece de usar querosene, gasolina ou dísel), aí, de longe, jogo um palito de fósforo.

Fizeste assim e nada? Tenta de novo, mas com um palito aceso desta vez, vais ver que dá uma explosãozinha e as mina pira, além de que a cachorrada se manda. Haverá um bom braseiro em 20 minutos, hora de colocar uns três ou quatro pedaços de madeira para dar gosto e iniciar a assar os aperitivos. Quando estiverem prontos, coloque o resto do carvão do lado do braseiro e boa sorte.

Cuidado que sempre vem um(x) chatx que quer fazer o fogo, diz que usa uma garrafa para fazer um vulcão de carvão, ou explica que usar nacos de vela é infalível, em fim, te aporrinha. Não de aba que ele te toma a churrasqueira e ai vão aparecer outrxs e é bem capaz que fiquem discutindo se a mechas de jornal são melhores que papel higiênico (virgem espero) com azeite. Saiba que tudo dá certo, até o meu vizinho que usa um maçarico consegue e eu nunca vi um churrasco que não saiu porque não pegou fogo - só quando o cunhado esquece do carvão.

Como o fogo sempre pega, o problema é que x(s) chatx(s), além de fazerem uma sujeira danada, ficarem todos encarvoados e depois se limparem com tudo que esteja a vista no teu banheiro, elxs vão atrasar a coisa toda e quando a fome bater, ninguém vai lembrar dxs idiotas que levaram uma hora ou mais para fazer um braseiro…

Voltando, me parece é simpatia, mas eu sempre jogo uma mão de sal grosso no braseiro um pouco antes de pôr a carne. Fazer isto me lembra de um amigo - que infelizmente já se foi - faza a mesma coisa, mas dizia que a carne ficava mais leve. Então, sobre salgar e espetar, faça como quiser, nem vou começar, porque vai parecer a discussão se a cobra mama em vaca. Observe, apenas, que as peças mais finas salgam e secam demais se já forem com o sal para o fogo, assim, é melhor salgá-las um pouco antes de servir. As peças maiores, se forem salgadas bem antes - exceto costela que não faz muita diferença, sei lá porquê - basta controlar o tempo de salga, que não deve passar muito de meia hora por quilo antes de ir ao fogo e lembre de tirar o excesso nesse momento.

Quem prefere, como eu, salgar direto no fogo, só não pode esquecer de selar a carne, ou seja, colocá-la por alguns segundos bem perto do fogo forte (10 cm) e virar todos os lados antes de levantar para assar (15 a 20 cm), isto mantêm a suculência. O sal, vale o que disse antes: peças finas só recebem sal grosso um pouco mais moído (ricos burros usam sal Kosher) perto de servir (medalhões quando já estiverem prontos). Nas peças maiores e mais grossas use só sal grosso em todos os lados quando estiver pela metade do cozimento. Sobre espetar, só uma coisa: se a churrasqueira tiver paredes, coloque a parte mais grossa da carne para o fundo.

O resto? Tá cheio de vídeo na internet e é muito chato ficar escrevendo obviedades e frescuras, mas lembre que a NASA, depois de inventar o travesseiro para astronauta, descobriu que o espeto rotativo é o preferido por quem dorme de meia. Caso tu use esse treco, não me pergunte o que acho, mas saiba de uma coisa: assar pingando a gordura na brasa é diferente de enrolar o fio da gordura na carne. 


É divagando que se chega ao longe


Não há dois churrascos iguais, mas se ficar sempre na mesma churrasqueira e assar sempre da mesma maneira os mesmos cortes, teus churrascos vão ficar parecendo enterro de político - todo mundo vai por outro motivo.

É bom e necessário se aventurar de vez em quando, aqui na Borrússia, quando há vítimas o suficiente, gosto de assar um costelão ou uma banda de borrego inteiro no fogo de chão, é divertido, mas tem que ter preparo físico e determinação. Para além dos modismos, já tentei de tudo contra essa monotonia: assei peixes na telha com folha de bananeira, usei assador a gás, a eletricidade, aquela coisa redonda e esquisita que se põe no bico do fogão, tenho uma churrasqueira sem fumaça (a brasa fica atrás das carnes e não embaixo) que usava para fazer um churrasco na sala do apartamento de Brasília. Na vida por ai, fiz mil churrasqueiras improvisadas de tijolo e sofri muitos tonéis indefectíveis em ruas e praças, sem contar que no Amapá usavam “janse” de carro e na casa dos amigos enfrentei diversos Grills, cada uma mais chique que o outro para fazer hambúrguer e salsichas. Confesso que tenho saudade de um velho Gengis-Kan de ferro fundido que literalmente se desfez e de algumas churrasqueiras de camping que a gente usava na casa da praia.

Sim! Passei muita vergonha: queimei muita carne, ficou duro, salguei, ficou cru (como a cabeça de porco que tentei assar num buraco com o fogo por cima), demorou demais, sei lá, mas todos os fracassos a cerveja sempre conseguiu lavar e nunca deixei de buscar novos desafios. Nos últimos anos me concentrei na busca do churrasco folclórico, o “legítimo” churrasco campeiro, assado no fogo de chão para honrar as tradições gaúchas…

Mitologia para quem precisa de mitologia. Foi rápido que aprendi que o tal fogo de chão é uma estupidez que precisa de um metro cúbico de lenha seca e boa para assar uns 15 kg de carne, mas serviu para desconfiar de onde veio a churrasqueira do papai. Quem se lança no fogo de chão descobre, de cara, que uma pequena vala ajuda muito e mais rápido ainda vai descobrir que revesti-la com pedras diminui a umidade e aumenta a eficiência do braseiro. Logo a dor nas costas e os olhos defumados também vão ensinar que elevar o braseiro a uns 70 cm do chão e protegê-lo do vento são coisas muito boas. Velho, daí para uma churrasqueira é um pulo, mas te lembres da estória do Professor Pardal querer fazer um “pick-nick” e curtir a natureza: formigas o fazem montar um tablado, um chuvisqueiro o convence a erguer um teto e, por fim, o vento frio o faz colocar paredes; pronto, estava numa casa e terminou a sacanagem.
Algo similar deve ter acontecido comigo nesta busca do churrasco radical. Foram tantas as melhorias que fiz no tal fogo de chão inicial, que acabei com uma churrasqueira de pedras, um pouco complexa, é verdade, mas com a vantagem dela estar sempre desmoronando e, assim, se manter em contínua evolução.

Na sua configuração atual ela inclui um espaço maior, ovalado, com quase um metro de comprimento, pouco profundo, forrado e cercado com pedras até um metro de altura, mas com a frente aberta. Nele costumo assar as peças maiores de pé e faço o fogo no chão e nas“paredes” apenas com lenha. A foto noturna é de uma indiada em pleno inverno borrussiano.

Do outro lado, aproveitando uma das paredes, continuei empilhando pedras, mas menores, e fiz uma torrezinha com o centro vazio, em forma coroa e com 20 cm de profundidade e de raio. Nele, faço o fogo para assar com a grelha de canaletas que não gosto muito, de vez em quando uso espetos. A foto seguinte é dele, onde estão assando três pedaços de Entrecot, que costumo acompanhar com um Refosco da Panizzon - que podia ficar bem melhor se estes gringos não economizassem tanto no enólogo.

Confesso que gosto muito de pôr fogo nas pedras e é muito divertido assar neste improviso científico, pois sempre surgem novos desafios como espetar uma grelha em nível, achar a lenha certa, etc.; também as condições nunca se repetem, pois venta demais, ou o vento muda, ou cai um chuvisqueiro e há eventos imprevisíveis como espetos caindo, paredes desmoronando, linguiça que rola da grelha para o fogo, ataque de #gatochato, porém, ocorrem momentos em que eu quero apenas fazer uma carne e tomar cerveja, ao invés de ficar provando para o acaso que sou o seu senhor, então, para não cair na armadilha da monótonia da churrasqueira do papai, decidi fazer uma Parrilla e assar meu bairrismo italo-teuto-gaúcho como avisei antes.


Churrasqueira ou Parrilla? Eis a Questão!


De auxiliar da minha mãe até pôr fogo nas pedras da Borrússia se pode ver que experimentei tudo que pude e no final das contas decidi pela Parrilla porque sou apaixonado por seu funcionamento e pela qualidade e sabor do seu churrasco, ou “assado”.

Tudo começou em 2008, quando meu trabalho incluiu relações exteriores e eu participei da delegação brasileira nas Reuniões Especializadas da Agricultura Familiar do Mercosul. Caso não saibas, a cada ano ocorre uma rodada de reuniões setoriais entre os países que formam o Mercosul, nelas a Secretaria Executiva muda de País e quem a entrega deve organizar o encontro. As rodadas são bem diversificadas e muito produtivas e seis meses antes delas, sempre ocorre uma reunião preparatória na sede do Mercosul, que fica em Montevideo no Uruguay.

Não pense que era mamata, havia muito trabalho e tenho muito orgulho de ter contribuído, além de ser grato com o tanto que que aprendi. Também não ache que rendia um dinheirão, quando muito o hotel e os deslocamentos eram cobertos pelas diárias, uma parte da alimentação sempre se tinha que tirar do bolso. Neste caso, então, por que economizar, ainda mais de noite, quando se podia tomar um vinho nacional?

Como o assunto é outro, não posso aprofundar essas experiências, mas vale a pena centrar o início desta paixão pelas Parrillas no Mercado Del Puerto, onde me convenci da supremacia delas. Tá certo que a carne do Uruguay é muito boa, mas não é só isso, porque assei muita costela do Pull nas churrasqueiras da vida e nunca ficou a mesma coisa.

Quem for a Montevideo, não deve deixar de conhecê-lo, pois como quase tudo naquele País, ele é pequeno, único e muito interessante e há muito artesanato que qualidade nos arredores, além de algum comércio de gêneros alimentares, mas sem dúvida, o Mercado Del Puerto é um monumento vivo à parrilla e ao assado, onde pode ser regado com o melhor Tanat do mundo (Dom Pascual Roble - sempre!) e levar a gente a níveis extremos de bom humor e felicidade.

Sobre as Parrillas propriamente ditas, é interessante notar que é uma palavra com vários significados, pode ser o restaurante que serve o assado, pode ser o próprio assado e também aquilo que conhecemos por grelha e, tal como o Xixo, não se sabe bem qual sua origem. Os castelhanos costumam indicar três possibilidades, embora, claramente, gostem mais da versão folclórica, na qual consta que a parrilla foi inventada por acaso, durante o século XVI, quando um ferreiro chamado Phillipe Ledoux ao errar a quantidade de grades necessárias para cercar o “Château” de um famoso Barão, ficou sabendo não receberia pelo excesso de grades e então decidiu se vingar assando carnes sobre elas na frente do casarão. O cheiro era tão bom que enlouqueceu o tal  Barão e ele resolveu dar os dois ducados que faltavam para ficar com a Parrilla-de-Portão recém inventada.

As outras versões são mais históricas, uma dá conta da invenção da parrilla em 1832, por conta de uma lei de anistia que ensejou a libertação de milhares de presos na Colônia de Sacramento. Eles resolveram destruir o presídio e para comemorar resolveram usar as grades das celas assar carnes e distribuir para a população. A outra reza que pelo final do século XIX, nas imediações do Rio da Prata, era comum usar grades de ferro para tensionar os couros que secavam aguardando a exportação e estas grades acabaram servindo, também, para assar as carnes que sobravam dos animais abatidos.


Ó Dúvida Atroz! Parrilla Uruguaia ou Argentina?



É fácil de encontrar encantadores de burros no Youtube zurrando sobre gastronomia, dentre os mais proeminentes, há uns quantos que discutem as diferenças entre a Parrilla uruguaia e a argentina, mas o fato é que nenhum destes países reivindica um determinado tipo de Parrilla, são eles quem atribuíram os tipos com a prepotência de sempre, ampliada pela ignorância característica da maioria. No fim, tudo se resume ao de sempre: tem um pato me vendo e eu sonho com a monetização, quero vender meu produto e/ou ganhar algum jabá do patrocinador.


"Xis-Tudo"
O que dizem nossos "ex-pertos"? Uma bobagem do tamanho do Riograndeamado: a parrilla feita de barras redondas é uruguaia e as feitas com barras em “V” são as argentinas. Basta buscar por Parrilla no Mercadolibre.com.uy e no Mercadolibre.com.ar para ver como nos dois países há todos os tipos imagináveis de Parrillas (e bem mais baratas que no Brazil), mas o que não dá para aguentar são os idiotas que afirmam haver vantagens nas ditas “argentinas” porque há uma caixinha para acumular a gordura escorrida e se pode pincelar esse caldo nas carnes para melhorar o sabor. Isso já é esculhambação! Primeiro porque não existe grelha 100% limpa depois do primeiro uso, imagina a tal caixinha, depois que o tal escorrimento é salgado demais e dependendo da variedade das carnes, vai dar gosto de “Xis Tudo” no seu assado!


"argentina" e "uruguaia"

Ocorre, apenas, que o mercado argentino é muito mais aberto que o uruguaio e nele existem mais produtos importados (“Grills”) americanos e europeus. Estes produtos de exportação são pensados para a diversidade do mercado internacional e por razões óbvias devem ser bem flexíveis de se usar, logo, uma caraterística importante é fazer menos fumaça o possível. Ironicamente eles copiam os princípios “Char-Broil”, que é um equipamento de cozinha profissional destinado a grelhar carnes em ambientes nos quais faz todo o sentido utilizar canaletas na grelha para evitar que a maior parte da gordura seja vaporizada nas pedras vulcânicas ou na proteção dos queimadores de gás.

Note, também, que a maior parte das Parrillas uruguaias é mais artesanal e há muita vantagem em usar barras na grelha, ao invés de canaletas, pois além de economizar mão de obra, dispensa equipamentos de solda-ponto que são bem caros.

Por outro lado, há algumas diferenças interessantes que podem ser culturais mesmo, por exemplo, as Parrillas argentinas tendem a ter altura fixa e, não raro, possuem dois andares, já as uruguaias, quase sempre, permitem a regulagem da altura, já as argentinas, frequentemente, possuem uma área na grelha onde as divisões são mais próximas e se destina a assar as miudezas e no nosso mercado, vais encontrar mais grelhas isoladas, para uso em churrasqueiras.


Não Vai Cair no Enem


Um assado não é um churrasco e um churrasco grelhado também não é uma parrillada, por mais que os paulistas achem isso. Também não há Parrilla Top do Universo que conserte o resultado de um péssimo assador, então, tenha em mente que existem diferenças muito marcantes entre o churrasco e o assado e a churrasqueira com grelha e a parrilla, respeitá-las ajuda muito:

  • Primeira: na Parrilla não se usa carvão, apenas lenha que é queimada em separado e apenas as brasas são arrastadas para debaixo das carnes.
  • Segunda: em hipótese alguma a carne é furada na Parrilla, por isso se usa grelha e pegadores. Não espete nada em uma Parrilla.
  • Terceiro: na Parrilla se usa preferencialmente peças fracionadas e finas (3 ou 4 cm) de carne e o tempo para assar deve ser o menor possível (15 a 20 minutos). Dá para assar uma ovelha inteira ou um pernil de porco, mas a técnica é diferente da churrasqueira, vai levar bem mais tempo e o assador deve saber controlar o fogo muito bem para produzir muita brasa.
  • Quarta: a carne vai ao fogo sem sal e deve ser selada imediatamente no calor intenso (10 cm das brasas), para só depois ser assada (15 a 25 cm das brasas).
  • Quinta: se salga apenas na hora de servir o assado (o sal parrillero é o mesmo sal grosso, só que moído para médio e com o preço multiplicado por dez).
  • Sexta: na Parrilla se come o boi de dentro para fora, ou seja, primeiro vêm as entranhas (Molleja (timo), Riñones (rins), Chinchulin (intestino delgado), Tripa Gorda (intestino grosso), Morcela Dulce (morcila), depois as carnes e acompanhamentos.
  • Sétima: não se usa farinha no assado, mas ótimos pães e grissinis.
  • Oitava: quem quiser carne bem passada, que vire veganx!


Rosinha, minha Parrilla


Antes de começar a desenhar e especificar o projeto dei uma boa pesquisada no assunto das Parrillas e olhei, real e virtualmente, muitos produtos e projetos, então posso dizer algumas coisas previamente.

Primeiro a desilusão! Tem quem ache que dá para fazer uma micro Parrilla e, pior, que dá para transformar sua churrasqueira numa Parrilla. Desista, vai ficar tipo pato, quase nada, quase caminha, quase voa, quase canta…

A Parrilla precisa de um espaço maior que uma churrasqueira, a para começar há o queimador da lenha, onde se produz o braseiro. Ele não será menor que o volume ocupado por um meio saco de lenha, destes de supermercado, de uns 10 Kg. O mínimo inicial vai determinar o ritmo de produção de brasas e garantir o fornecimento até o fim do assado, por isso é importante começar com alguma folga, desta forma, no mínimo, ele vai requerer um volume de 20 X 35 X 25 cm (L C A) e seus pés devem ter uns 10 cm de altura.

Depois a Parrilla propriamente dita, ou grelha, tem seu tamanho minimo. É recomendável 1 m2 para 40 pessoas, logo, um tamanho bom para algo doméstico e confortável é, pelo menos, um quarto disso. A área mínima para uma Parrilla capaz de suportar o queimador e a grelha, sendo fácil de manejar, terá de ser aproximadamente 70 X 40 cm. Churrasqueiras desse tamanho normalmente serão muito fundas.

A medida da altura da base da Parrilla também deve ser um pouco maior daquela que se emprega nas churrasqueiras, porque na Parrilla as carnes são assadas mais próximas do braseiro. Outra diferença que deve ser pensada é a distribuição das brasas sob a grelha e o atiçamento do fogo, nestes casos é bom que a base seja rasa para facilitar o trabalho e as suas costas vão agradecer se a base não ficar a muito menos de 80 cm de altura do chão.

Outro aspecto importante é sobre a durabilidade. Quem for fazer fazer uma Parrilla móvel como a Rosinha e pretende que dure mais que um verão, é bom revestir todos os metais com tijolos e não deixar o fogo tocar na estrutura, exceto onde for necessário, como no caso do queimador. Neste rumo, decidi usar tijolos refratários na base e tijoletas ou ladrilhos refratários (metade da espessura dos tijolos) nas laterais. O problema, então, virou o peso e creio que se pode usar tijoletas na base também - no futuro farei estes teste.

Na foto abaixo a Parrila está invertida para se ver as barras em "T" que suportam os tijolos, note que a disposição é ao comprido para dar mais resistência para eles. Vi muitas Parrillas ofertadas no mercado sem esta proteção, algumas bem caras até alegam utilizar chapas grossas, mas é balela, pois nenhuma chapa vai resistir o braseiro, a causticidade das cinzas e a oxidação do sal, então, se for pagar uma nota por algo sem revestimento, deprecie em dois anos.

Nas Parrilas que não são fixas e construídas de alvenaria, há o problema da altura das paredes laterais para considerar. Notei que há vários modelos as dispensam, mas acho isso uma burrice perigosa, tanto pelo vento, que além de esfriar as carnes em cima, vai acender demais as brasas embaixo, quanto pela questão de segurança, principalmente se houver crianças bêbadas ao redor…

Quando há paredes, quase sempre elas têm a altura de um tijolo de pé (21 a 25 cm) devee basta, sem dúvida. No meu projeto pensei em fazê-las com dois tijolos e meio de altura nas proximidades do queimador, pois as paredes não ficariam sobre a base, mas encaixadas dos lados e, assim, a altura diminuiria os 5 ou 6 centímetros que é a espessura do tijolo da base, mas acabei fazendo todas as paredes com 20 cm de altura para simplificar a execução.

Podendo, faça uma coifa para exaustão, mas é opcional , principalmente em espaço aberto onde não houver nada acima da Parrilla, pelo menos, a três metros de altura. Nas móveis, pode ser feita uma base em separado onde se encaixa na estrutura da Parrilla (está difícil de ver na foto, mas é assim) e colocar quatro ou duas rodas como fiz.


O Diabo Mora nos Detalhes Construtivos


Para maior simplicidade, durabilidade e custo baixo defini que não houvesse a utilização de chapas (embora seja racional utilizá-las nas paredes) e que o queimador seria feito em ferro redondo de ½” polegada, soldado com eletrodos para ferro fundido. As dimensões mínimas seriam 25 cm de largura, 35 de altura e 40 cm de profundidade, para ser possível utilizar lenha de diferentes tipos e tamanhos.

A base que planejei inicialmente se comporia de apenas 4 x 4 tijolos, assentada sobre um carrinho tubular (30 X 30 m) semi-fixo (duas rodas e dois pés de borracha, as travas foram feitas de tubo 25 X 25 mm). O carrinho foi construído separadamente e suporta a estrutura da Parrilla por encaixes.

Os tijolos da base são assentados sobre barras de ferro "T" de espessura de 2,5 mm (serralheiro) soldadas em uma moldura de barras de ferro "V" (cantoneiras), também de 2,5,mm que suporta as tijoletas das paredes. Toda a estrutura da parrilla foi soldada com processo Mig. O travamento das paredes foi feito com uma barra chata de 1.1/2" por 3/8".

A grelha de barras flutuantes (não soldadas) foi confeccionada decom barras de inox e sua estrutura com tubos galvanizados de 15 X 15 mm. A ideia inicial de tamanho era fazê-la com duas partes articuladas, uma com 400 X 500 mm e a outra com 400 X 150 mm.

Na execução, houve algumas mudanças nas especificações iniciais:

Ampliação da base para 5 X 4 tijolos refratários (depois de pronta fiquei em dúvida se não havia exagerado), desta forma o tamanho final ficou aproximadamente e 562 mm (110 mm X 5 + 2,5 mm X 5) de largura e 840 mm de comprimento. Somadas as paredes, as dimensões externas da base ficaram aproximadamente 592 mm por 895 mm.

A soldagem das barras "T" com as barras "V" das paredes foi por baixo, para maior resistência com o aumento da área de cordão de solda, apenas uma pequena parte da crista interna foi removida de cada lado para permitir o encaixe das tijoleta da parede. Na parte do fundo, a última barra "T" distou 25 mm da barra "V" para encaixar a parede traseira, exigindo que as tijoletas das esquinas internas ficassem maiores uma espessura que as demais, todas cortadas no meio. As barras foram soldadas no sentido do comprimento dos tijolos para que eles fossem suportados aumentandopelos lados maiores, aumentando, assim, a resistência da base a impactos. A espessura das barras "T" da estrutura da base foi 2,5 mm.



Sobre a primeira fila de tijoletas foi montada uma estrutura dupla com barras em "V" que tanto as segurou na parte superior, quanto formou uma base para a segunda fileira das paredes ser encaixada. A solução adotada para esta estrutura foi soldar duas barras "V" (cantoneiras) ao comprido para formar um ”U” onde as tijoletas das três paredes (laterais e fundo) pudessem ser encaixadas.

Como a espessura das tijoletas era aproximadamente 25 mm, foram utilizadas barras em "V" de 1/2" por 1/8" de espessura e de 3/4" por 2,5 mm de espessura, desta forma o vão interno ficou com 25,4 mm. Foram feitas três peças, duas com 600 mm e uma com 900 mm que depois foram ajustadas e cortadas em 90°.

Está primeira estrutura foi duplicada invertendo a posição das barras de 1/2" e 3/4" para ajustar as diferentes espessuras delas antes de soldá-la sobre a primeira estrutura, assim, foi criado um leito plano para a segunda fileira de tijoletas, conforme dito antes. Uma terceira estrutura similar foi construída para dar o acabamento superior na Parrilla e fixada sobre as tijoletas da segunda fileira das laterais e do fundo.

Por último, uma barra de ferro chato de 1.½” por 3/8" de espessura foi soldada ligando estas estruturas pela frente da Parrilla e conferindo rigidez suficiente às paredes. A ideia original de elevar as paredes na volta do queimador foi abandonada por ser dispensável.



O queimador, pensado originalmente apenas soldado, após a dobradura das barras de ½” de aço se demonstrou capaz de receber barras chatas e furadas como reforço, assim foi elevada significativamente a sua resistência.

A grelha foi a ultima peça construída, originalmente teria 400 mm de largura, porém o aproveitamento racional das barras de 6 metros de aço inox (3/16” e ¼” utilizadas intercaladamente) recomendou a largura de 470 mm e para aproveitar o máximo da base da Parrilla, o comprimento deveria ficar perto de 500 mm.

Como a decisão foi construí-la com duas partes articuladas entre si para que pudesse haver uma regulagem de altura, a solução adotada foi construir uma área maior com 470 X 470 mm e ligá-la por um pino articulado a outra menor com 100 X 470 mm. Nesta menor foram soldados quatro pés de 10 mm cada e na maior apenas dois de 150mm, que podem ser apoiados no queimador para elevar a grelha a 250 mm. Os tubos utilizados são de metal galvanizado (15 X 15 mm), perfurados internamente a cada 12 mm para encaixar as barras sem solda - livre expansão pelo calor.

Não fiz uma contabilidade exata do material utilizado, mas, a grosso modo, na base utilizei uma barra de 30 x 30 mm inteira e 1/3 de barra 25 X 25 mm nas travas dos pés (todas com 1,6 mm de espessura), dois com rodízios, dois com pés de borracha. Na estrutura da Parrilla foram empregados 4.750 mm de barra "T" de 3/4" por 2,5 mm de espessura e 3.200 mm de barra "V" de 3/4" por 2,5 mm de espessura. Nas paredes, as estruturas, dupla e simples superior, consumiram 6.750 mm de barra "V" de 1/2" por 1/8" e 6.750 mm de barra "V" de 3/4" por 2,5 mm de espessura. A barra chata da frente de 1.1/2" por 3/8 " de espessura tem aproximadamente 920 mm de comprimento e o queimador utilizou 3/4 de uma barra de 600 mm de 1/2" de espessura. A grelha exigiu duas barras de inox, 3/16” e ¼”, e mais meia barra de tubo 15 X15 mm de 1,9 mm de espessura, todas com 600 mm de comprimento. Na base estão 20 tijolos e nas paredes outras 20 tijoletas.

Difícil estimar o custo, pois demorei muito para terminar porque tive vários problemas durante a execução, mas de material, dá para considerar que foi gasto pelo menos uns 500 reais em metal e mais uns 100 reais em tijolos e consumíveis.






Em Tempo: aceito encomendas!

E na inauguração deu bom!!??




ASSE-SE


quinta-feira, 30 de maio de 2019

Para não tossir até que o botoque caia

Remédio caseiro também é culinária de galpão!





Achei umas fotos perdidas que tirara quando fiz o xarope de Caraguatá no ano passado (essa ai de cima não é minha), ou de bananinha do mato, e como está quase no fim a época do ano que esta planta produz seus frutos, acho que vale a pena publicar, porém não há muita novidade aqui. Este é um dos remédios mais tradicionais de nossa cultura colonial e foi aprendido, com certeza, dos índios.

Antes, fiquei curioso e fui tentar descobrir o que significa Caragutá em Guarani e parece que os índios usam esta palavra para se referirem a coisas em sequência, o que é bem apropriado, pois estas plantas que se chamam de Bromelia balansae na faculdade, além de se parecerem com o Ananás, nascem entoiceiradas, criando verdadeiras barreiras, quase sempre nas bordas úmidas das matas em regeneração no sul temperado do Brasil. Suas folhas longas, resistentes e espinhosas não convidam a enfrentá-lo.

Há uma vasta gama de informações na internet, basta procurar pelo nome que surge de tudo, até gente dizendo que é milagroso... Sem exageros, ele funciona, é ótimo para tosse e ajuda muito expectorando o catarro, mas não creio que combata a febre e, sinceramente, duvido que sirva para coisas mais pesadas, como pneumonia, mas de qualquer forma o uso desde criança, assim como todo mundo lá em casa, e quase sempre algum amigo pergunta se tenho.




Seus frutos não são gostosos, talvez alguns animais apreciem, mas para fazer o xarope tem que misturar com açúcar e ou mel. Se pode colocar outras ervas junto, mas é bom usar apenas aquelas que somam no propósito da tosse.

Achei uma referência de que os índios Bororós, aqueles que usam grandes botoques na boca, o apreciam na culinária. Creio que usam mais a sua inflorescência e os rizomas, como não tenho o livro das PANCs, não vou saber se o Valderi o considerou alimentar, de qualquer forma peço a quem souber alguma receita para compartilhar nos comentários, será muito bem vinda.

Chega de Xaropiar

O processo é bastante simples, basta achar o cacho no campo, isso se se pode chamar algo que está apontando para cima de cacho, e separar os frutos, cortá-los no meio e colocar tudo em uma forma grande.

Cobrir os frutos cortados com açúcar e um pouco de mel, usei o mascavo para ficar mais natural e há quem use apenas mel. 

Adiciona-se, então, alguma erva medicinal que ajude na tosse, neste caso caso usei só o Poejo, mas sempre coloco Guaco também, só não tinha  a mão neste dia.

Por fim vai ao forno por algumas horas, adicionando-se água sempre que ficar viscoso demais.

Cuide para não queimar que depois vai bastar escorrer, coando com com um pano de algodão, para dentro de algum vidro de conserva. Eu deixo na geladeira, mas também dura bastante fora dela, apenas creio que se deva colocar mais açúcar, pois é um conservante poderoso.

Há muitas variantes do processo, descrevi o que uso e sempre deu bom resultado, exceto quando esqueço no forno, mas ai é outro problema. Por certo não há norma técnica... então todas as maneiras de preparar o xarope são certas, apenas ressalto uma que me parece interessante e ainda vou experimentar: fazer sem colocar no forno, dessorando apenas com açúcar, na sombra e em temperatura ambiente por alguns dias, antes de mofar, claro. Não sei se o calor não degrada os princípios ativos, então talvez haja alguma vantagem em fazer desta forma, embora o rendimento deva ser bem menor.  



O gosto é bom e as crianças tomam o Xarope sem reclamar, não que adultos não devem utilizá-lo também, pelo contrário. Não sei de contra indicação, tão pouco de reação alérgica, mas quem nunca tomou é bom ir devagar.

TOME-SE

JBL 4355, Velhos e Poderosos


Gigantes pela Própria Natureza!


Os monitores de estúdio JBL 4355 lançados na década de 70 marcaram época no áudio profissional e enquanto os estúdios e as bandas foram grandes o suficiente para eles, simplesmente reinaram como aqueles dinossauros enormes e bocudos, os T.Rex creio.

Eles mediam 90 centímetros de altura, 120 de comprimento e 50 de profundidade e cantavam alto (126 db  ou 96 dB 1W/1m) e maravilhosamente com uma resposta de frequência plana entre 28 Hz e 20 KHz.




Eram monitores de alta sensibilidade e coroaram a época de ouro da indústria fonográfica analógica, infelizmente também marcaram o início de seu fim. A JBL já vinha tendo presença forte no áudio profissional, mas em 1969 quando o judeu canadense Sidney Harman a adquiriu, ela entrou de cabeça. Neste mesmo ano deu grande suporte ao Woodstock Rock Festival e lançou os monitores profissionais JBL 4311, sucesso absoluto, presentes em quase todos os bons estúdios de gravação da época e em muitos lares, com sua linha doméstica chamada L-100, que vendeu mais de 125 mil pares naquele ano.

Os monitores JBL 4355 foram lançadas em 1972, substituíram os JBL 4350 no topo da linha, os quais tinham dimensões similares, mas suportavam "apenas" 200 W e não desciam além de 30 Hz. É fácil distinguir entre os modelos, seja pela cor zaul dos 4355, seja pelos três dutos dos 4350.  Foram seguidos por algumas atualizações e outros modelos da mesma série, que talvez tenha chegado as anos 80, porém nada superou o glamour destes ícones, capazes despertar paixão mais de quarenta anos depois do seu lançamento e virarem objetos disputados por audiófilos e/ou colecionadores em todo o mundo, notadamente no Japão, onde um par restaurado chega a custar 80 mil reais ou mais, dependendo do grau de originalidade. No Brasil só sei de um par em São Paulo.

Sem dúvida foi um projeto muito audacioso: quatro vias em bi‑amplificação, com os subgraves e graves a cargo de dois woofers 2235H de 15” (38 cm de diâmetro) em um compartimento próprio e ligados em uma entrada independente para 300w de potência, para médias e altas frequências havia um "midrange" 2202H de 12” (30 cm de diâmetro). Ele era apoiado por um driver 2441 de alta compressão, 2" com diafragma de alumínio, instalado em uma corneta 2308 acompanhada de grandes lente acústica, e por mais um tweeter 2405 e a entrada independente destas vias era para 150 W. Os circuitos de crossover cortavam as frequências em 290 HZ, 1,2 KHz e 10 Khz e havia dois potenciômetros para atenuar o nível sonoro das vias. Quem quiser plantas e esquemas originais pode encontrar aqui.

Para homenageá-los decidi fazer a 43.55, uma humilde "réplica" bem simplificada e em escala maior dos JBL 4355, mas no princípio o projeto não estava claro e tudo começou de trás para frente...

Se comprar o bicho pega, se fizer o bicho come


Quem lida com áudio já ouviu a palavrinha mágica: depende. Verdade, em áudio tudo depende, mas há alguns princípios universais: o pior equipamento sempre será o mais importante para o resultado final e quando faltar dinheiro, você não terá mais dinheiro. O bicho pega!

Mas saiba que as pessoas felizes não medem a paixão pelo custo, fixam seus objetivos de audição por meio de revistas e sites especializados, o SPL não importa para seus vizinhos e qualquer tamanho de caixa cabe na sua sala. Todas as outras se assustam mais com o custos do que se apaixonam, não sabem bem o que querem - afinal estão sonhando - e sofrem com vizinhos chatos e salas pequenas. Neste grupo maior há elementos perigosos, que em vez de sonhar com algo novo, capaz de impulsionar a economia, não, preferem reaproveitar um alto falante em condições duvidosas ou, pior, restaurar aquela caixa v(elha)intage toda esfarelada com alto falantes mais potentes, ou "mais pior", viu no Youtube e achou facilzinho ...

Se o assíduo leitor for desta turma perigosa, então poderá haver algo aqui para dar para o bicho comer, mas inicie com algo útil, como memorizar  os cinco estágios do áudio caseiro:


  1. Negação que seu som é uma porcaria.
  2. Raiva de que seu som é uma porcaria.
  3. Barganha de que dá para melhorar gastando quase nada.
  4. Depressão por descobrir que não dá.
  5. Aceitação de que fazer caixas novas não vai resolver tudo, mas se der ruim, foi terapia.

Quem sai aos seus, sempre alcança


Era janeiro de 2018, numa manhã banhada de ócio criativo decidi flertar com o perigo e abri o Mercado Livre sem nada na cabeça; e só quem não tem nada mesmo pode fazer uma besteira destas... Virou e mexeu, me deparei com um par de alto falantes Pioneer TSG 1630 ofertados por 60 reais que me chamaram a atenção, tanto pelo preço, quanto pela conservação - uma ponta de estoque de uma loja de auto peças. Pouca pesquisa foi necessária para descobrir que se tratava de um produto mundial lançado no final dos anos 90, capaz de acumular críticas positivas em vários países e ainda estar bem presente no Ebay.

Entre o pedido e a entrega decidi que faria uma Boom Box, no máximo usaria mais um tweeter, coisa simples, só para fazer barulho nos churrascos, ocorreu que nesses dias também comecei a pesquisar os equipamentos de som dos anos 70 e 80 quando os grandes concertos de Rock estavam no auge e coisas inimagináveis como o WOS (Wall Of Sound) do Grateful Dead surgiam. Por conta destas pesquisas acabei esbarrando na série profissional de monitores de estúdio da JBL da década de 70 e foi amor a primeira vista, seja pela beleza, seja pelo descomedimento. 

Bastou imaginá-los uma única vez na minha sala para me convencer de que eu precisaria de uma sala nova com casa e tudo, bem não ia rolar, então por que não fazer uma homenagem? Algo em escala, uma caixa só, usando os Pioneers e um tweeter Novik NT1 antigo que estava desemparelhado, só faltaria o midrange e o projeto original para ajustar nos tamanhos.

Demorei uns meses até encontrar os esquemas e as plantas originais das JBL 4355, então desenhei no SkechUp a frente dos monitores em tamanho original e fui reescalando até que nos furos dos woofers de 15” coubessem os TSG1630 de 6”. A sorte ajudou , o nicho do midrange de 12” ficou muito perto do que seria necessário para um alto falante de 5”.

Voltei destemidamente ao Mercado Livre e achei um bom candidato, inclusive com um cone parecido e que custava uns 50 reais com o frete.  Assim que encomendei tinha quase tudo o que precisava para o projeto,  que resolvi chamar de 43.55.

Já podia começar, só que não! Apenas as dimensões da altura e da largura puderam ser definidas a priori ao reescalar os furos dos alto falantes para aproximadamente 1:2,5, porém a medida da profundidade dependia do volume da caixa,  e ele em qualquer projeto Bass Reflex depende da sintonia buscada que é limitada pelos parâmetros dos alto falantes, algo que eu não tinha a menor ideia.

Nesta época, já pela metade de 2018, eu apenas consegui imprimir em papel a frente da 43.55 e colar em um compensado de 18 mm cortado no tamanho exato, para que eu pudesse fazer as furações o mais correto o possível (por azar perdi as fotos desta etapa). O projeto, então, ficou literalmente mofando no galpão até eu conseguir medir os alto falantes e fazer as simulações para definir quantos litros a 43.55 teria. Demorou mais quase meio ano para eu consegui medi-los, pois dependeu de um amigo convencer a sua namorada a trazer o DATs dos EUA - gratidão eterna!

Dava para medir com multímetro, uma resistência e uma caixa de testes?
Sim, claro, mas mede um para ver como é bom... 

Os alto falantes Pioneer de 6” resultaram em uma Fs de 84 Hz, o QTS em 0,76 e o Vas em 11 litros, dados que confirmaram a qualidade compatível com os 80 W e os 4 Ohms de impedância informados. A sensibilidade de 89,8 dB/W/m. O Le 0,48 mH e o Bl de 3,4 N/Amp também podem ser consideradas razoáveis, assim, no conjunto, este alto falante é um bom produto.

O  de 5" apresentou uma qualidade um pouco menor, a FS de 108 Hz, a Qts  de 1,4 e o Vas de 7 litros deixaram isso claro, mas olhando os demais parâmetros, especialmente o Le de 0,36 mH em 1 KHz e o Bl de 2,3, dá para considera-lo razoável com seus 60 W e sensibilidade de  88,9 db 1w/1m. A arte imitou a vida neste caso, porque o menor controle do cone recomendava um compartimento separado como no projeto original.

O Tweeter tem a parte traseira isolada, logo não impõe mudança no cálculo do volume do compartimento das médias e altas, exceto pelo pouco que ocupa. Sua Fs de 1,175 Hz e sua sensibilidade de 88,3 dB 1W/1m foram gratas surpresas por casar bem e se aproximar dos demais componentes do projeto, embora possa ser considerado o de menor qualidade, dado a tecnologia da época cobrar seu preço: Le e Qts muito alto para um Tweeter (0,93 mH a 1 KHz e Qts de 3,2 respectivamente) embora o Bl seja bom (4,5 N/Amp). No manual da Novik a sua curva de resposta não passa de 16 KHz e não é nada plana.

Com os alto falantes medidos, usei o BassCad, gratuito e muito bom (!), para fazer as simulações e conforme o projeto original, também usei dois volumes separados, um para as baixas, onde ficaram os Pionners e outro para as médias altas onde pus o mid e o tweeter.

TIP Alert!

Em simulações onde o volume é compartilhado por dois ou mais alto falantes se deve considerar que a área de cone (Sd) e o Vas aumentam na mesma proporção do número deles, como se fosse um só alto falante, já os parâmetros de qualidade ficam iguais.

De pequenino é que se paga o pato


As simulações realizadas não foram auspiciosas! Mesmo alto falantes razoavelmente bons como estes Pioneers, ainda são alto falantes automotivos e foram projetados serem instalados nas portas e tampas, simulando o Bafle Infinito, assim, os volumes indicados para obter a sintonia mais baixa, ou melhor: a maior extensão possível dos graves e a curva de resposta mais plana acabaram ficando muito muito, mas muito grandes para uma Boom Box.

Fez mais sentido partir do maior volume teórico e ir reduzindo-o aos poucos, por tentativa e erro, com novas simulações até que a curva de resposta resultante ficasse aceitável e o volume factível, pois a medida da profundidade deveria harmonizar com a altura e largura. O projeto desta Bass Reflex também exigiu quebrar a cabeça para encontrar uma sintonia para a caixa que fosse capaz de cotejar o volume interno e o volume dos dutos com o reforço dos graves por volta dos 70 Hz. O problema era que o projeto fixara o diâmetro e  número dos dutos e a sintonia ideal os deixava compridos demais. Sem dúvida esta foi a parte mais difícil do projeto das 43.55, afinal, ela exigiu decidir sobre comprometimentos múltiplos e interligados.

Foram muitas simulações até achar as medidas físicas para cortar a chapa e fazer as paredes laterais, mas não me dei conta de que não descontara todo o volume das travas e das divisórias dos compartimentos, além de que ainda não sabia o volume do amplificador. Depois tive que resolver isso e foi necessário aumentar um pouco a profundidade cortando novas paredes.

Restavam ainda duas definições : as frequências de corte e a amplificação para “ativar” a caixa. Queria que não fosse necessária uma fonte externa, até cogitava um banco de baterias e preferia uma solução nacional, mas foi impossível porque as opções brasileiras se mostraram ridiculamente caras e, pior, aparentavam não ter a qualidade suficiente para valer o preço pedido, inclusive a grande maioria utilizava componentes chineses. Partiu importação direta!

Inicialmente pensei em utilizar duas placas amplificadoras simples e imitar a caixa original com dois potenciômetros na frente, mas isso implicaria em desenvolver uma solução de fonte e resolver como inserir uma codificadora de MP3 que tivesse Bluetooth. Depois de pesquisar  acabei optando pela placa integrada de ativação de subwoofer da Ayima, um verdadeiro canivete suíço por meros 24 dólares. Esta placa é completa e ainda permite a ligação diretamente na energia elétrica, pois possui um pequeno transformador integrado em uma fonte retificadora.

Não obstante, tentei importar uma placa de fonte para fazer um banco de baterias que carregasse diretamente, mas os Correios conseguiram me enganar. Não avisaram que o produto estava retido aguardando o pagamento de uma taxa de 15 reais de entrega, não era um imposto, então o exportador é quem deveria pagar. Esperaram 30 dias e devolveram por falta de pagamento e só soube do caso quando o site da China me avisou. Depois desta, abri uma exceção na minha opinião sobre as privatizações e definitivamente eu quero que o Correio brasileiro se rale!

Quem olhar as especificações da placa notará que ela parece meio fraca, afinal o fabricante informa nos graves a potência de 100 W e nos agudos 30 W, mas não há problema, pois os 80 W informados como o máximo suportado pelos Pioneers, os 40 W do “Renult” e os 25 W do Tweeter são todos PMPO e se multiplicarmos os 12 volts de operação da placa pelos pelos 3 amperes com que opera, menos 10% de perdas por calor, se pode esperar que este amplificadorzinho renda perto de 45 W RMS, o que está bem bom.

Como esta placa é mono, mas possui saídas independentes para para graves e agudos, é possível que seu filtro interno divida a potencia como normalmente ocorre em qualquer sistema: 80% para os graves e 20% para os agudos, assim é provável que os Pioneers e o "Renult" recebam no máximo 30 W juntos e o NT1  os 15W RMS restantes, ou seja, nem potência de menos, nem demais para queimar.

Crossover talvez nem fosse necessário, pois as eficiências dos alto falantes estavam balanceadas, mas como há muita sobreposição nas médias é possível que o som ficasse colorido pelo acoplamento dos três woofers, então achei bom separar minimamente e encomendei no Mercado Livre  dois divisores passivos de uma via, do tipo passa altas com cortes de 12 dB por oitava, um em 800 Hz  para as médias e o outro em 2 KHz para o Tweeter, juntos custaram 50 reais mais ou menos.



A última coisa que faltava no projeto teórico era definir a ligação dos alto falantes para casar minimamente as impedâncias. Se pusesse todos em série a impedância seria muito alta e o amplificador não conseguiria gerar SPL, já se os pusesse em paralelo, seria o contrário, a impedância ficaria muito baixa e o amplificar teria volume alto por muito pouco tempo antes de queimar.






A solução foi ligar o Tweeter de 8 Ohms em separado e colocar em série-paralelo os dois Pioneers de 4 Ohms com o “Renult” de 4 Ohms, assim a impedância media vista pelo amplificador ficou por volta de 6 Ohms, algo segura, e o volume ficou bem legal.

Partiu 43.55


A implementação começou por fazer com a Tupia os rebaixos dos alto falantes e depois, por dentro deles, abrir os furos. O furo para o tweeter, assim como as demais aberturas, eram pequenos, então foi mais fácil usar uma serra copo, inclusive nos dutos que foram montados com anéis de MDF colados.

Como disse antes, a escala tinha fixado a altura e a largura, mas não a profundidade, esta veio das simulações, cotejando entre volume e resposta. No final as dimensões externas ficaram 55 cm de largura, 38 cm de altura e 26 cm de profundidade externamente. O volume interno aproximou-se de 42 litros, tendo a câmara dos médios e tweeter ficado próxima dos 12 litros, porém o volume das paredes internas e dos reforços ocupou mais espaço que o esperado e mesmo aumentando um pouco mais a profundidade, a resposta na zona dos graves ficou um pouco mais bicuda que o esperado.


Para melhorar a estética, a frente da caixa sobrepôs todas as paredes, mas isto a enfraqueceu um pouco e exigiu reforçar com ripas coladas em todas as junções. A última abertura foi na tampa traseira para instalar o amplificador e os dutos foram feitos a partir de discos de madeira colados, após o miolo ser cortado para formar os anéis. No cálculo final eles ficaram com seis centímetros de diâmetro e 12 centímetros de comprimento. 

Grosso modo, o volume do compartimento dos graves ficou com aproximadamente 22 litros livres e o dos médios 12 litros, volumes pequenos em comparação com o ideal, então para para melhorar a sonoridade foi necessário forrar as paredes com uma manta grossa de algodão e colocar o resto que tinha de espuma acústica no compartimento dos graves. Isto faz com que os alto falantes enxerguem uma caixa maior do que a real.


Os acabamentos externos foram feitos de MDF, primeiro os três aros, um para cada alto falante, afim de esconder as bordas deles - seriam desnecessários caso o alto falante de 5” ão tivesse vindo com uma borda funda em plástico que precisou ser cortada para entrar no nicho e ficou muito feio. Os grampos foram feitos dobrando "ganchos"para pendurar quadros pintados de cinza, sua fixação por parafusados foi o bastante para segurar os anéis, mas os alto falantes foram aparafusados nos nichos.


O tweeter da caixa original tinha um plugue de fase na sua saída e a corneta do driver uma lente acústica, o plugue foi reproduzido em compensado e pintado de preto, mas é mera alegoria, já a lente teve que ser feita em madeira. Ela saiu um pouco grosseira, então resolvi apenas pintá-la com verniz, afinal a 43.55 é uma homenagem, não uma imitação. Ambas as saídas, do plugue e da lente, são compartilhadas pelo Tweeter, o qual foi internamente fixado em uma placa de compensado na qual foi feita uma abertura ligeiramente menor que seu diâmetro para criar uma câmara frontal que talvez ajude no controle do cone de papel e melhore sonoridade.

A frente foi pintada de azul, conforme o projeto original, mas infelizmente não foi possível encontrar uma tinta spray com uma tonalidade realmente próxima da verdadeira, inclusive achei horrível esta cor, mas até ser necessária uma repintura pelo uso, não vou esquentar a cabeça com isso.

O toque final foi revestir as paredes laterais e fazer os pés com madeira natural "reciclada" de Canela Preta. Foi utilizada uma peça bem antiga, retirada das tábuas de um galpão colonial aqui da Borrússia, a qual, depois de pintada com Verniz PU, acrescentou muito na aparência final do conjunto, realmente invocando o espírito vintage.

A caixa de fósforos e caixa de som


Parece até nome de parábola, mas não é, é um aviso! Fazer caixa de som a moda louco pode acabar precisando de uma caixa de fósforos para pôr fim no sofrimento, é por este motivo que mesmo um brinquedo como esse merece um pouco de estudo e algumas horas de simulação. Não resolve tudo, mas minimiza as perdas.

Bom, silêncio total na Borrússia, meu cachorro desmaiado num monte de serragem e eu, rezando para Pan, giro os botões, ligo a caixa na tomada e aperto "On": ala fresca tchê!!! Uma mulher dá uma baita berro em inglês avisando que o BlueTooth estava disponível. O cusco saiu correndo enquanto eu ficava pensando porque nunca acerto o lado do volume.

Uns minutos de chiadeira infernal e consigo ligar o telefone pelo Bluetooth, então a Janis Joplin começou a cantar “Cry baby, cry baby, cry baby, Honey, welcome back home...” de forma linda e com um pouco de ajuste nos controles de tonalidade o som ficou forte e confortável.

Em seguida passei o RTA com o microfone do celular mesmo para ver se a resposta estava bem plana e para minha surpresa ficou bom. Dias depois consegui tempo para medir melhor a curva de resposta usando um microfone calibrado e o resultado foi surpreendentemente bom, publiquei no FaceBook no grupo do AudioBr. Como meu telefone deu problema mortal, não sei vou conseguir achar estas capturas de tela novamente, se conseguir, atualizo o post depois.

Casa Grande e Senzala


Bom, o destino da 43.55 era a senzala da churrasqueira, e acabou indo para o quarto do meu filho na casa grande - um presente por ele ter passado no vestibular... afff.

Se alguém estiver curioso com o custo do projeto acho que não posso dizer exatamente, porque além de aproveitamentos sem um valor específico, também demorei muito para terminar, mas creio que o total deve ter ficado entre 350 e 400 reais no máximo, sem contar a mão de obra porque a do terapeuta é mais cara...

Quem quiser que compare, por exemplo, um tubinho de irritar desse da JBL (que decadência!) custa mais de mil reais e suas cópias perto de 500. Quando muito têm 40 W PMPO e o grave é curtinho, pois usa dois radiadores passivos minúsculos.

Ai deve ter gente dizendo: “ATA”, mas ela é portátil, tem bateria, etc...

Podem comparar, então, com algo mais parecido. A Party Box 2000 serve, também é da JBL e possui quase as mesmas funções da 43.55, mas custa mais de dois mil reais, mas tem umas luzinhas bem legais... já na qualidade do som confesso que não sei, nem tenho como saber, mas o desafio está aceito, ela promete de 45 Hz a 18 KHz com -6dB com 2 x 6,5” e (?) 3 X 2,5”...


JOTABELE-SE