quarta-feira, 15 de maio de 2019

A Faca que veio da Lâmina

Uma Faca de Dois Legumes

Tem aparecido pouca coisa por aqui sobre a vida sitiante, então para variar, vou contar como se livrar de um problema e cortar a desgraça reciclando uma lâmina de roçadeira.

Quem tem sítio ou gramado grande possivelmente tem uma roçadeira, esta é uma das ferramentas mais indispensáveis e vale a pena investir na melhor possível. A coisa é bruta aqui na Borrússia, então a minha é fortinha, uma 290 da Sthil, a qual recomendo efusivamente, pois é comparável ao Fusca em confiabilidade e durabilidade, só não em preço, mas fazer o que...

Bom, as roçadeiras podem trabalhar com fios ou lâminas para cortar a vegetação, se for fio, não há muito o que dizer, apenas que prefiro os de perfil quadrado, mais grossos, porque cortam por mais tempo antes de arrebentar e é um saco parar toda hora para rodar o carretel.
Já com as lâminas a coisa é bem mais complicada, pois há diversos tipos, mas os principais estão na foto ao lado. Além destes se pode encontrar lâminas circulares com s dentes imitando os elos de uma corrente de motosserra, lâminas com quatro pontas, ou um esquisito, de lata e com várias pontas, mas que serve apenas para gramados. Há modelos com partes móveis também, mas estes eu sinceramente desaconselho, mesmo sem nunca ter experimentado, porque me parece bem óbvio o risco ao operador e a quem e o que estiver perto.

O que é difícil é saber qual o melhor uso para cada uma destas lâminas e parece útil falar um pouco das mais comuns: as lâminas circulares trabalham por muito pouco tempo entre afiações, mas como são destinadas a cortar caules mais grossos em serviços florestais, desempenham bem este papel, inclusive com galhos baixos. A minha experiência diz que elas vão bem até diâmetros de 4 cm a 8 cm se não houver vegetação arbustiva densa junto, pois tendem a embuchar na proteção da lâmina (que pode ser retirada sem risco) e forçar muito o motor. É importante que se tome o maior cuidado com pedras porque além de estragar a lâmina facilmente elas tiram lascas com muita força. Depois há as lâminas do tipo faca com duas, três e até quatro pontas. As de três ou mais pontas são as melhores para o uso geral operando muito bem de capim a capoeira média, com pedras ou sem. Embucham menos, mantêm o fio por mais tempo e me parece ser as que menos forçam o motor e a transmissão, que fica dentro do joelho, na ponta de baixo, perto da lâmina.

A única desvantagem da lâmina de três pontas é que gasta meio rápido se há pedras e logo encurta, diminuindo o rendimento e talvez por isso tenham inventado a de duas pontas, na qual a superfície de corte é bem maior e roça mais área em menos tempo.

O motivo disso o Albert já explicou a tempos quando disse que a energia é igual a massa multiplicada pela velocidade (da luz) ao quadrado. Nesta lâmina comprida e pesada a massa da área de corte é maior do que todas as demais opções que conheço e a velocidade angular também é maior em qualquer rotação, pois é mais comprida que qualquer outra, além da afiação constante reduzir mais sua largura que o comprimento.

Se o uso for em capoeira média, onde os caules vão estar por volta dos 4 ou 5 cm, independente se for densa ou não, ela é a melhor opção, sem dúvida, porém não pode haver pedras de forma alguma. Não só porque a lâmina bate nelas com muita força e tira facilmente lascas voadoras na sua cara (use proteção sempre, afinal um capacete com viseira em tela de plástico não custa 150 reais e olhos não se encontra para vender), mas também porque a transmissão recebe um grande impacto e quebra facilmente.

Pode parecer enrolação de blogueiro, mas esta experiência compartilhada não achei em lugar nenhum e os fabricantes parecem fazer questão de não explicar, o resultado disto é que nos balcões da vida quase sempre desaconselham o uso da lâmina de duas pontas, quando é disparada a melhor solução para capoeira alta e densa, inclusive para campo sujo, desde que não haja pedras como disse antes.

Roçar o Prejuízo Desde a Raíz


Depois de rachar duas transmissões que custam perto de 300 reais, isso se não for com peças originais, eu desisti de usar a lâmina de duas pontas e com raiva já ia jogar fora essa maledeta, quando ao pegá-la na mão vi que seu aço era excepcional, tinha 3,5 mm de espessura e mesmo depois de dois anos de uso ainda restara muito de sua forma original.


Pensei que poderia dar uma boa faca e fui na internet procurar modelos. Achei muita coisa, os russo adoram e há coleções imensas de modelos em tamanho normal e prontos para imprimir. Até tentei isso, mas como o tamanho que eu tinha era restrito e a curvatura da lâmina grande se quisesse aproveitar quase tudo, terminei só usando a pesquisa como inspiração mesmo porque não havia nada que se ajustasse, especialmente para aproveitar o furo do eixo.

Como havia esta curva na lâmina resolvi adaptar o desenho da Kukri,  a temida faca dos temidos Gurkhas, que na vida real é quase um facão tático. Apenas tinha que fazer bem menor e estilizado como uma faca de caça para não precisar de muito acabamento e encarar sem medo os desafios do sítio, seja no mato, no galpão ou na churrasqueira.

Destemperados não devem fazer facas

Sem maiores pretensões, risquei o modelo direto na lâmina a mão livre mesmo, usando um lápis até achar um desenho bom, então reforcei ele com uma caneta hidrográfica, prendi no torno e baixei o cacete com a esmerilhadora usando a técnica clássica da escultura: cortar fora tudo que não parecesse com a faca.


Depois e cortar a forma básica, pensei que um cabo em madeira simples bastaria, já que era Fulltang, e bastariam dois furos para os rebites e mais um na ponta para o cordelete (a cordinha de enrolar no pulso que parece bobagem, mas pensar uma faca pesada caindo no seu pé ou voando da mão ao cortar um galho não são coisas auspiciosas).


O problema foi que eu não destemperei o aço, mas também não poderia porque ainda não fiz minha forja, e estas lâminas são temperadas em toda a superfície, não só no fio como fazem os cuteleiros ruins. Os bons sabem como dar dupla têmpera: uma mais macia no corpo para não quebrar o cabo facilmente e outra mais dura, só no fio, para que a faca corte mais depois de afiada, mas esta será outra estória, apenas fique esperto: uma faca artesanal por menos de 400 reais não tem como não ser algo para turista e se a bainha for rebuscada então fuja!

Até fazer os três furos arruinei umas cinco brocas e olha que tive que iniciar com furos pequenos e depois os alargar. Talvez tenha sido a parte mais idiota e difícil de todo o processo.

No Farquejo faça um Choil no Ricasso


No cabo não me estressei, tinha um pedaço de Angelim a mão, cortei no meio para fazer duas talas e como não tinha esses rebites legais de cutelaria, nem estava com saco de pedir e esperar os Correios, cortei um gancho de prender janela em duas partes e furei as talas conforme os furos do espigão para não dar erro, ai foi só passar Araldite em tudo e transpassar os pedaços de latão cortados do gancho. Uma noite no torno e pronto.





Abre parênteses.
Tenho um amigo com quase 80 anos que ainda ara com bois e têm uma destreza impressionante com o facão, ou terçado para os nortistas, ao qual se refere como sua caneta e bem que escreve mesmo com ele. Por homenagem a quem muito me ensinou, peguei emprestado dele este termo farquejo, pois nunca escutei outra pessoa o pronunciar. Ele tem dois significados, pode ser tomar um banho quando fica inadiável, ou fazer com que peças grosseiras de madeira se alinharem e encaixarem desbastando na espessura com o facão.
Fecha.


Para farquejar iniciei com um disco de desbaste na esmerilhadora e fui afinando a lâmina, esculpindo o falso fio e aumentando um pouco o semicírculo no Ricasso, onde o dedo indicador ficará alojado naquilo que se costuma chamar de Choil Sem Fio.

O Ricasso é a parte mais grossa e sem fio que fica no fim da lâmina, antes da guarda. Nele se pode fazer ou não o Choil, mas como o projeto era de uma faca para uso pesado sem guardas, para melhorar a empunhadura decidi pelo Choil que melhora muito a firmeza da empunhadura. Um Choil menor também poderia ser feito logo depois do fio para permitir que toda a lâmina fosse afiada, mas é muito mais estético que prático.

Alerta de Cultura Inútil!

Não se deve confundir o Choil e Cho, ou Kaura, das facas Kukri verdadeiras. Eles ficam no mesmo lugar, mas possuem utilidades bem diferentes: o Choil serve tanto para travar uma lâmina oposta e permitir quebra-la ou desviá-la, tal como há em algumas espadas, já o Cho é para fazer pingar o sangue que escorre pela lâmina, antes de chegar no cabo e melar tudo...

O acabamento mais fino foi realizado de forma econômica usando um disco Flap descartado como base para uma lixa redonda presa por cima na esmerilhadora, assim o que se faz com os 15 reais de um Flap, se consegue fazer com 3 ou 4 de uma lixa, com a vantagem haver bem mais opções de grão.

Deve dar arrepios nos cuteleiros ver o cabo lixado junto com a faca, tudo montado, mas fazendo isto não tive trabalho com os pinos do cabo nem para moldá-lo e, surpreendentemente, a cola suportou muito bem. Seria bom ter polido, mas não tinha nem massa, nem politriz; então ficou na lixa fina mesmo e o cabo foi apenas envernizado com o resto de um PU que eu tinha.




Algumas horas de pedra de amolar e ela ficou cortando muito bem. Dias depois, quando eu já a havia usado algumas vezes, assentado o fio melhor e feito pequenos ajustes na forma, pois ficara um pouco barriguda para cortar coisas pequenas estava pensando na sua bainha e no tento de couro para o pulso, quando aconteceu uma grata surpresa.

Um casal de amigos que não via a muito tempo e de quem gosto muito veio nos visitaram e lhes contando as peripécias do Pastor Alemão mostrei a faca, dai pronto! Foi contar a estória para trocá-la por 10 centavos, já uma faca eu não poderia dar de presente para uma amiga, porque cortaria a amizade, não é Mãe?


CORTE-SE   


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Pegar no Bigolaro é Bom!


Eis uma estrovenga grande e grossa que extrapola muito os 16,5 cm, lustrosa e dura, causa um suador em quem usa, porque quanto mais apertada for, mais saborosa será a massa branca que expele!
Il Torchio Bigolaro.




Confesso que gosto um pouco mais que devia de coisas antigas, especialmente aquelas que se pode berber e ouvir, mas também de ferramentas, carros e panelas. Valorizo os aspectos culturais e históricos destas coisas e me preocupo quando elas sofrem adaptações e reinterpretações ruins nestes tempos pós-modernos e não raro se lhes roubam a essência.

Panelas velhas não fazem só comida boa, fazem comida de uma forma única, que nem sempre é insuperável, mas sempre é irreprodutível.  Invocar receitas tradicionais, mesmo quando se dispões de todos os ingredientes originais e autênticos e conhecendo os segredos das proporções e tempos, quase sempre requer mais algumas coisas que a tecnologia disponível nem sempre pode fornecer.

Estes detalhes são onde o diabo se esconde: como não cozinhar no fogo de lenha, ou usar uma frigideira de ferro com o “teflon” que o uso por cinquenta ou mais anos criou? No roll ainda cabe alguns utensílios específicos que fazem toda a diferença, como usar um Bigolaro ao invés de uma extrusora motorizada, então, quem nunca quis pegar num Bigolaro que atire o primeiro dislike!

As diferenças fazem toda a diferença, trato feito minha bruxa!


Sonho antigo! Eu queria um Bigolaro para chamar de meu, já bem antes de saber que se chamava assim, pois os tinha visto em coleções de artefatos coloniais e alguns museus e me apaixonei à primeira vista.

Queria tanto que até importei um similar da China, uma reinterpretação modernizada criticada cima, em aço inox e plástico, que usei muitas vezes e sempre com resultados incomparáveis a qualquer massa fresca que pudesse achar por ai - inclusive daquelas alegadas como “artesanais” feitas nas casas especializadas onde adicionam ouro em pó. Ocorre que eu ficava com uma sensação de incompletude, porque sabia que não era a mesma coisa, a começar pelo ritual – imagine uma missa em um podcast...

Continuei a procurar por muito tempo e dava por arquivado o desejo quando uma amiga, leitora deste blog bissexto, mandou a foto de um Bigolaro que achara nas em suas andanças pelo Planalto Riograndense e disse que se lembrara de mim. Essas bruxinhas não nos dão paz...

Consciente, ela não sabia que eu desejava tanto um treco destes, deve ter levado um susto quando supliquei que comprasse um igual e na hora se prontificou, mas ela estava de passagem comprada para voltar para sua casa, tinha passado algum tempo cuidando da mãe e voltava naqueles dias, assim eu teria que curtir uma angústia!

Foram meses, eis que de repente ela mandou uma mensagem "Tu ainda quer...", amigas são para estas coisas e mais alguns dias pude pegar no Bigolaro pela primeira vez, com a vantagem de que o frete virou uma dívida que só poderá ser paga com uma “bigolada” aqui em casa.

Pode parecer idiota, na verdade é idiota, mas eu queria tanto e nem o nome direito da coisa eu sabia! Paixão é assim, então tomei vergonha e postei uma foto perguntando se alguém sabia o nome, porque eu não tinha a menor ideia.

Quase instantâneo! Um casal de amigos - que amo e não vejo a versão real desde que voltaram do Nordeste - respondeu informando que se tratava “do infalível Bigolaro” e que na tradição familiar ele passava de geração para geração. Depois desta coloquei a minha ignorância de molho e fui estudar.

Na bandiera, na léngoa, na storia 


  • Antes, um aviso de utilidade pública: o Bigolaro em questão era feito na serra gaúcha, por uma empresa metalúrgica de Caxias do Sul chamada Lieme, que infelizmente fechou a alguns anos e como tentei, mas não consegui identificar nenhuma outra que ainda os fabrique, então se alguém souber onde ainda é produzida esta máquina, ou se onde pode ser obtida no Brasil, por favor, deixe a dica nos comentários, é importante!


Um pouco de história na frente dos bois.


O Bigolo ou Bigoli (se pronuncia “bigól”) veio antes do Bigolaro e seu nome possui muitas explicações, uma das mais aceitas o relaciona com "bigàt" palavra do dialeto Vêneto que significa lagarta, por sinal este dialeto é falado até hoje pelos imigrantes italianos do Rio Grande do Sul, em sua maioria originados nesta região.

Não confunda Beagle com Bigoli
A história desta massa remonta a meados do século doze, quando a cidade-estado de Veneza entrou em guerra com a Turquia, que lhe afundou os navios com o precioso trigo, exigindo o racionamento e misturas na farinha; foi assim que surgiu essa massa rústica e simples, com a forma de um macarrão grosso, feita apenas de trigo comum, água, sal. Ovos, naquela época, eram preciosos demais para serem usados na massa e só depois da segunda guerra mundial foram adicionados nas receitas, assim como algum percentual de farinha de grão duro, ou sêmola.

A consistência mais rígida do Bigoli e sua aspereza propiciam a ela absorver muito mais molho do que uma massa comum, talvez isso tenha ajudado ela a se tornar a preferência de toda a região norte da Itália onde várias festas populares lhe são dedicadas.

Existem incontáveis receitas e muitas variantes da pasta básica, aquelas que utilizam centeio, trigo sarraceno ou farinha integral são conhecidas como Bigoli Mori. Por esta massa ter a origem em uma época de muita restrição alimentar ela foi incorporada na cultura popular como o prato sdequado para as ceias nas datas de contrição do calendário cristão, especialmente a véspera de Natal, no início da Quaresma e na Semana Santa. Nestas ocasiões o Bigoli é servido em receitas simples, com poucos ingredientes e a preferência recai sobre o tradicional “Bigoli in salsa”, também conhecido como “Bigoli con le Sardelle” - Sardele é como costumam denominar a anchova salgada na região do Vêneto. Um prato saboroso feito apenas com massa, azeite, cebola e anchovas ou sardinhas secas. 

Por mais de duzentos anos os “Bigoli” foram feitos de forma manual e trabalhosa, até que em 1604 o Sr. Bartolomeu Veronese, um Genovês que produzia massas, inventou a "Torchio Bigolaro", uma prensa muito parecida com a atual, porém toda em madeira e assim a manufatura e o consumo desta massa se popularizaram por toda a região do Vêneto que escolheu o dia 26 de janeiro como o Dia do Bigoli.



O Infalível Bigolaro


Tradicionalmente o Bigolaro é preso na mesa de madeira que não fala na cozinha das famílias italianas, onde há um furo para ele, ou em uma banqueta na qual fica sentado seu operador, de forma que fique suficientemente alto do chão.

É uma máquina bem simples, basicamente um cilindro de bronze com aletas de ferro para ser fixado em uma superfície.  Dentro dele há um embolo movido por um fuso, o qual ao ser enroscado, empurra a massa contra uma trefila (molde de placa furada) para extrusá-la com alguma forma. Mudando-se a trefila, se muda o tipo da massa e as mais comuns além do Bigoli  são o Espaguete, o Talharim e o Macarrão, mas há trefilas especiais para fazer massas mais largas de “Capeletti” e “Lasagnha”, ou enroladas como “Casarecce” e “Fusilli”.
Para fazer o Bigoli se usa uma trefila com furos redondos similar à do Espaguete, porém maiores, com diâmetro entre 2,5 e 3 mm e a extrusão é feita até a massa atingir o comprimento de 30 a 40 cm.
Na medida em que a massa sai por baixo do Bigolaro ela deve ser enfarinhada e aparada em uma bacia ao ser cortada, em seguida é bom secá-la pendurando os fios em varas chamadas “perteghette” ou em cordões grossos.

No meu caso, que não tenho uma mesa de cozinha, se fizesse um banco ia ficar chutando ele pela casa, então a solução foi fazer um sistema de montar e desmontar baseado em uma tábua com ajuste de largura para ser presa em diferentes mesas. As fotos, creio, são auto explicativas.





A tábua possui 15 cm de largura por 2,5 cm de espessura, é de eucalipto, como todas as demais peças, e seu comprimento é 50 cm. Sobre ela há uma tábua mais fina para deixar tudo mais leve, onde foram feitos dois rasgos para que em cada um houvesse uma manopla com a finalidade de fixar a dimensão longitudinal. O Bigolaro passa pelo furo da tábua grossa e suas aletas são fixadas nela com dois parafusos e porcas borboleta, por fim, tanto na peça móvel de ajuste do comprimento, quanto na de fixação do Bigolaro, há calços com 1,5 cm de espessura que prendem o conjunto no tampo da mesa que pode ter a largura de 55 a 80 cm.


 

Mangiare


O Bigoli, por ser muito apreciado, acumulou receitas ao longo do tempo em diversos locais na região do Vêneto e hoje está muito além da tradicional "Bigoli in salsa” feita com anchovas e ou sardinhas e cebolas. Várias fontes foram consultadas para este post, e peço perdão por não ter conseguido organizá-las em hiperlinks, mas encorajo uma visita ao site da L’Associazione Italiana Food Blogger (AIFB)  e dali para onde ele o levar.

Il Bigoli.


A pasta base para o Bigoli era feita de farinha comum, sal e água que bastasse para ela ficar moldável.  Não encontrei as proporções descritas apropriadamente de uma fonte confiável, então selecionei a variante que mais gostei e experimentei algumas vezes. Creio que obtive um melhor resultado ao misturar, em volume, 2/3 de farinha comum com 1/3 de farinha de sêmola ou grão duro e para cada 200 gramas destas misturas adicionei uma gema e um ovo inteiro e uma pitada pequena de sal. Depois sove bem em uma superfície enfarinhada e vá incorporando água morna aos poucos (pouco mesmo, molhar as mãos algumas vezes basta) até a massa desgrudar dos dedos e ficar lisa (bumbum de bebê). Deixar descansar por 20 a 30 minutos. Quanta água? Só no olho mesmo, é impossível dizer, pois cada farinha hidrata de uma forma diferente, mas o importante é que seja SÓ O SUFICIENTE para obter uma massa rígida, caso contrário, quando for extrusada, embora vá passar com menos esforço pelos furos, os fios frágeis vão espichar, partir e grudarão uns nos outros.

Aprendi uma coisa importante sobre massas extrusadas nesta pandemia (este parágrafo é uma atualização feita em junho de 2020), a hidratação da massa para o Bigolaro deve girar entorno dos 30% (em peso: 7 farinha e 3 de água). Quem usar ovos deve prestar até, pois as receitas tradicionais indicam 1 ovo para 100 g de farinha, o que é muito para extrudar.

Um ovo grande pesa umas 50 a 55g, se usarmos todo ele, se deve considerar que 75% seja água, ou seja, 40 g aproximadamente. Assim a hidratação da farinha na proporção usual fica bem alta para o Bigolaro. Grosso modo, se separarmos as coisas, as claras possuem 90% de água e as gemas 50% e em peso 38 g e 17 g respectivamente.

É possível fazer a massa só com água, só com ovos, só com gemas, só com claras (tem quem use vinho...). Então faça as contas: se em cada ovo há 40g de água, para hidratar 400 g de farinha a 30% use três ovos grandes inteiros e talvez um pouquinho mais de água (uma colher de chá) se os ovos forem muito pequenos, outra opção seria adicionar uma gema. De qualquer forma, não existe nada muito fixo e tudo deve ser sempre corrigido pela experiência do cozinheiro.






Na medida em que a massa for saindo do Bigolaro é bom enfarinhar antes de cortá-la. Use uma bacia com farinha a 40 cm do Bigolaro para aparar os fios. A massa pode ir direto para o cozimento, mas é melhor se for deixada para secar um pouco nas varinhas - que podem ser colocadas no encosto de cadeiras - ou num barbante grosso.

Coloque sempre uma folha de papel alumínio ou papel manteiga embaixo dos fios de massa, assim se alguma partir não vai fora.

Bigoli in salsa


A receita tradicional do “Bigoli in salsa”, ou Bigoli no Molho, é simples, só cebolas finamente cortadas e anchovas (ou sardinhas) secas, que depois de dessalgadas são lentamente dissolvidas no azeite extra virgem. Há boa chance desta receita ser o resultado do encontro das culturas católica e judaica nos guetos de Veneza na observância dos períodos de jejum.

500 g de Bigoli.
200 g de cebola.
4 colheres grandes de azeite extra virgem.
200 g de anchovas secas ou em conserva (pode pôr um pouco mais para dar mais gosto).
Sal e pimenta a gosto.

Passe as anchovas em água corrente para remover o excesso de sal (pode dessalgar em vinho banco), se houver ossos retire-os e pique grosseiramente os filés. Corte as cebolas em fatias bem finas e deite-as no óleo quente até dourar, então cubra com água quente e deixe cozinhar por cerca de dez minutos. Quando a água tiver evaporado, adicione as anchovas picadas e deixe fritar tudo por alguns minutos esmagando o peixe até que se torne um molho. Desligue o fogo e adicione mais um pouco de azeite. Junte o Bigoli cozido ao molho e salteie no fogo, pode adicionar um pouco de água para dar mais gosto na massa e no fim prove e corrija o sal se for necessário, além de adicionar pimenta a gosto. Serve cinco pessoas.

Em algumas receitas se usa manteiga para fazer o molho e assim que a cebola secar um pouco, pode ser adicionado salsa e cebolinha, ou uma pitada de canela em pó (que também pode ser posta depois de pronto), ou de gengibre e gotas de limão, assim como alcaparras.

Bigoli Neri


Não testei ainda, mas achei bem interessante esta receita tradicional da região da Lagoa das Pérolas, próxima de Veneza, que no passado também era tradicionalmente servida nos dias de "jejum" como a Sexta-Feira Santa e a Quarta-Feira de Cinzas.

400 g. de Bigoli.
4 Lulas, duas com a tinta.
Azeite extra virgem.
3 dentes de alho.
1 copo, meio a meio, de vinho branco e água.
Extrato de tomate, sal e pimenta o quanto baste.

Prepare um refogado com o alho e assim que dourar junte as lulas (o corpo em tiras e os tentáculos em cubos), vinho com a água e adicione um pouco de extrato de tomate - vá provando até arredondar. Em seguida, adicione a tinta e cozinhe em fogo baixo por cerca de dez minutos, quando reduzir um pouco adicione o Bigoli cozido em água salgada até o ponto “al dente” e finalize o cozimento no molho. Serve quatro pessoas.

Bigoli com pato (Bigoli al Tocio)


Típico no outono e inverno italianos, este prato forte usa no molho os miúdos do pato, a pele e toda sua gordura, além de um pouco de bacon. Por ser extremamente gorduroso, há versões mais leves do prato que usam apenas os miúdos, um pouco de carne e muito pouco das gorduras, que são substituídas pelo azeite extra virgem.

400 g de Bigoli.
Miúdos de pato: fígado, coração, moela ( as tripas são opcionais de raíz...).
Alecrim, alho, tomilho, manjerona e sálvia em buquê garni, ou picadas finamente.
1 xícara de vinho branco seco.
Azeite extra virgem.
Sal e pimenta a gosto.
Caldo da carcaça do pato fervida com 1 cebola, 2 talos de aipo e salsa.
Queijo ralado.

Desossar o pato, tirar a pele e separar um pouco da carne para o molho, o restante das carnes servirá para outra ocasião. Corte a porção separada da carne e toda a pele em tiras e coloque o esqueleto e a moela em uma panela com água, a cebola, o aipo e sal para fazer o caldo no qual irá cozinhar o Bigoli depois. Faça um refogado usando a gordura do pato, a carne e a pele, além da moela e dos outros miúdos, tempere com sal e pimenta a gosto e deixe fritar até adquirir um tom marrom escuro, quando deve ser adicionado o vinho. Deixe reduzir um pouco e junte o Bigoli com um pouco do caldo do cozimento e polvilhe com bastante queijo parmesão ralado.

Não tem pato, cace com Galinha da Angola.


Por fim, uma dica importante. No Brasil, sei lá por qual motivo, a gente costuma escorrer a massa e colocar o molho por cima, mas quem é observador notou  nas receitas que se faz o encontro da massa com o molho! Quando a massa está "al dente" se leva ela para a panela do molho para terminar seu cozimento dentro do molho. O motivo é óbvio, mas o óbvio é sempre o mais difícil...  



Saboreie-se!

 

sábado, 4 de novembro de 2017

É Cedro que podes fazer um Mini System 2.1 Bass Reflex com TLs

Nestes dias de primavera anda chovendo aos cântaros, muita ovelha ensopada e algum tempo livre fora do normal, porém o futuro é do trabalho acumulado, mas enquanto o seu lobo não vem aproveito para um pouco de "britolagem".

Gostei muito do resultado das Moiras e decidi fazer mais caixas de som, mas desta vez que coubessem na minha sala e que as pudesse levar para onde fosse, então pensei em um Mini System adequado aos 120 watts RMS do amplificador de ativação de subwoofer que comprara para as Moiras, mas depois me pareceu muito fraco.

Mini System em Cedro

Este amplificador eu encomendei da China por 36 dólares via AliExpress, a foto dele está abaixo e seu modelo é o SW-501 da Aiyima, uma boa empresa. Em reais custou perto de R$ 120,00 sem a fonte, mas por sorte tinha uma genérica de notebook que serviu super bem.



Ele é bem pequeno, conseguiu passar direto pela alfândega depois de uns 30 dias esperando, o que foi bom, não o tempo, claro, mas por não ter sido tributado. Alguém pode pensar que isso é bobagem porque ele está longe dos 50 dólares, mas na importação direta não há cota e tudo que se manda vir, acrescido do frete, pode ser  tributado em 50% conforme o valor atribuído pela receita.

Nós gaúchos, graças a um Desgovernador do PMDB chamado Rigoto - o Chorão, ainda sofremos um achaque extra da Secretaria da Fazenda Estadual que com a maior cara de pau cobra o ICMS de uma mercadoria que nunca circulou.

Bom, o amplificador já estava a mais de um mês encima da mesa e eu pensando no que faria, cheguei a calcular um sistema com blocos de concreto de construção, mas a litragem deles é muito pequena e o peso demasiado, mas gostei da ideia e talvez use umas sucatas que tenho outra hora, assim resolvi olhar no Mercado Livre o que encontrava de bom e barato.

Qual concepção? A lei dos "omi" ajuda?


Antes de sair por ai comprando é importante lembar que caixas boas são construídas entorno dos alto falantes, então, sistemas bons também devem ser construídos entorno do amplificador.

Neste caso o amplificador alega ter 120 Watts em três canais, como não tenho um voltímetro, um gerador de sinais e um resistor de capacidade conhecida, não posso medir ele para ter certeza de sua potência RMS (Root Mean Square), a que importa.

Fazer o quê? Bom, como este projeto todo está solidamente baseado em chute científico apoiado na sorte, não custa lembrar que amplificadores, como quase tudo nesta época, são péssimos em eficiência, sendo seguro não esperar mais que 25% de sua potência teórica (usando tensão de alimentação e não a de saída) gere som.

O fabricante não disponibiliza manual, ou eu não achei,  mas se não me engano, o chip dele é o 3836, logo um AB com capacidade de 30 Watts, de forma que devem ser dois integrados, um para os canais estéreo (30 Watts + 30 Watts) e outro em mono (60 Watts).

No corpo da placa do amplificador está gravada a informação de que ele aceita fontes de alimentação entre 15 e 22 Volts de tensão e até 5 Amperes de corrente,  condizente com os alegados 120 Watts  do "max powerconsumption".

Para se tirar a prova basta olhar a mandala famosa da lei dos "omi" que está ai do lado: a potência teórica é a tensão de alimentação multiplicada pela corrente informada.

P = I*V 

P = 75 a 110 Watts.


Com uma ideia da potência máxima teórica é possível aplicar um fator de potencia de 25% para aproximar até potência real de trabalho do amplificador:


18,7 a 27.5 Watts RMS.


É interessante lembrar que amplificadores não são demandados igualmente pelos alto falantes, não apenas por suas diferentes capacidades de suportar potência, mas porque ritmos musicais diferentes possuem, igualmente, diferentes conjuntos de frequências, como cada uma dessas frequências demanda uma quantidade diferente de energia, grosso modo, 60% da potencia dos amplificadores vai para os graves, 35% para os médios e 15% no máximo para os agudos.

Um sistema 2.1 precisa, por esta razão, ter mais potencia no canal dos graves e o construtor do amplificador sabe disto, logo dos 19 a 27,5 Watts RMS, possivelmente 10 a 20 Watts vão para o canal dos graves e o restante vai para os outros dois canais meio a meio.

Mas isso não é nada!


Os ato falantes pequenos normalmente são vendidos apenas com a divulgação da sua capacidade de suportar potência (50 Watts mais ou menos) e sua impedâncias (4 Ohms).

Essa potência informada jamais é a RMS, pois se fosse, os valores informados seriam tão baixos que os tornariam pouco atrativos.

Os fabricantes divulgam a chamada potência de pico musical, ou PMPO ("Peak Music Power Output"), que não é padronizada e pouca credibilidade possui, tanto que é recorrente a indústria multiplicar por quatro a potência RMS planejada para um determinado alto falante suportar e aplicá-la, por poucos instantes,  um número repetidamente grande de vezes, para depois avaliar os danos no controle de qualidade e assim estabelecer a "potencia de marketing".

Alto falantes pequenos, desta forma, dificilmente suportam mais que 12 Watts de potencia RMS a 4 Ohms, ou seja, é quase tudo que o que amplificador da Aiyima deve ser capaz de entregar em cada canal se for alimentado por uma fonte de 22 Volts e 5 amperes, sendo esperado o dobro  no canal mono dos graves.




Depois de tantos chutes científicos chega a hora do suporte da sorte: pela indústria um sistema 2.1 projetado para este amplificador, digo: planejado para este amplificador, deveria ter uma caixa de graves que não ultrapassasse 110 Watts PMPO e as caixas satélite poderiam ter quantos alto falantes se quisesse, desde que a soma das potências PMPO suportadas por eles não ultrapassasse os 60 Watts, tudo sob 4 Ohms de impedância e por cautela, se deve diminuir isso um pouco, ficando em 100 e 50 Watts respectivamente.

Fiz isso?

Claro que não e deu ruim!


Navegar é preciso, o Mercado Livre não é Preciso


Com a concepção estabelecida eu gostaria de achar bons alto falantes baratos, daqueles produzidos por fadas madrinhas para os unicórnios, mas o melhor era não ter muitas expectativas, então nem tentei falar com vendedores mais conceituados, casas do ramo, etc. e fui direto no Mercado Livre ver o que achava em 10 x sem juros.

Digitando "minisubwoofer", "miniwoofer", "full range" "2,5", etc. aparece cada coisa... Sem esperança de ter alguma informação dos parâmetros, muito menos que algum vendedor de alto falantes de 2 a 3 polegadas tivesse saco de informar isso, mesmo que soubesse do que se tratava, decidi que o melhor era não voar alto.

A opção foi procurar qualquer coisa chamada de "mini sub woofer" que tivesse jeito disso: bordas de suspensão em borracha que parecessem bem moles e depois rezar que em uma caixa Bass Reflex ele rendesse um pouco abaixo de 100 hz e fiz da mesma forma para os médios e agudos, procurei o que fosse chamado de "mini woofer full range" e tivesse jeito de alguma qualidade.

Achei algumas opções entorno de 2,5" bem baratas e pareciam servir para a minha finalidade: sistema portátil que tocasse suficientemente bem para valer o trabalho de montar. Um plano realístico...

Comprei um "mini subwoofer" de 2,7", dois "mini woofers" de 2,5" que usam em Home Theaters da Sansung e dois "mini qualquer coisa" de 2" da Eastech:



Os cinco custaram R$ 150,00 a perder de vista, sem juros e com o frete, ou seja, 30 reais na média, o que é um bom preço na minha opinião. Quem se interessar pode falar com o vendedor, pois ele possui outros modelos mais caros e itens variados, seu nome é Roger e foi bem rápido no envio.

Claro que não havia informação alguma dos parâmetros, além das respectivas impedâncias de 3, 4 e 4 Ohms  e potências suportadas  de 75, 66 e 50 Watts estampadas nos versos dos alto falantes.

O resultado da minha falta de opções, paciência e insensato otimismo foi que comprei /ás cegas mesmo e acabei com potência de menos para os graves e de mais para os médios e a coisa não arredondou como eu queria, mas antes vamos falar dos alto falantes.

O Sansung estava informado "errado", pois na verdade é feito pela BH Acoustel e o modelo correto é o U076L02SSK2 que possui 26 Watts RMS, diferente dos 50 anunciados de um outro modelo praticamente igual, não fossem as bordas viradas do chassi.

Pesquisando um pouco na internet não achei nada sobre os alto falantes que comprei e como não tenho um traçador de impedância, muito menos um RTA, tive que cavar mais fundo até achar um Data Sheet do "Sansung":




Analisando a curva de resposta acima se pode ver que o "mini woofer" da "Sansung" tem a sensibilidade baixa como esperado, entorno de 81 dB, sua frequência de ressonância é 150 Hz e o ponto de menos 6 dB deve estar nos 120Hz. Uma oitava a baixo é 60 hertz e este deve ser o piso audível deste alto falante.

Da Eastech achei dois catálogos no site, porém em nenhum havia informações sobre estes modelos que comprara, óbvio! O jeito foi extrapolar os dados médios do que estava informado nos diversos modelos e não esperar muito da sintonia das caixas. No dia em que eu puder medi-las farei os ajustes, principalmente da litragem da caixa bass reflex, pois se tiver excesso de volume ele pode ser corrigido colocando dentro isopor, ou coisa assim, além do duto, que também pode ser sintonizado novamente sem estragar tudo.

Neste rumo, amparado tão somente pela sorte, resolvi ter a crença de que o "mini subwoofer", segundo os modelos mais parecidos do catálogo, deveria tocar bem entre 100 hz e 4 Khz  e o "mini qualquer coisa" tende a não ser, nem mais sensível, nem mais amplo que o "Sansung", logo é de se esperar que ele toque melhor acima dos 1000 hz e suba até um pouco mais, quem sabe vá a 16 Khz ou mais. Decidi dar-lhe um tratamento de Tweeter e cortei ele pelos 11 Khz , com isso também se alivia um pouco a potência drenada por ele.

O diabo mora nos detalhes


Como desenhar o mini system? Achei melhor definir a caixa de graves primeiro, pois segundo minha crença o alto falante deveria ter uma freqüência de ressonância entorno de 100 Hz, embora não fizesse a menor ideia do Vas e do Qts dele. Bom, um alto falante pequeno destes não pode ter um Vas grande e o Qts deve ser médio alto, porque é um pouco macio e tem um motor pequeno.

Existem programas de simulação e projeto de caixas ótimos por ai, mas com o nível baixíssimo de informações que dispunha não dava para perder tempo com ferramentas complexas, usei o "Speaker Box Desingner" comprado na AppStore por uns R$ 6,00 e é capaz de calcular e simular caixas seladas, "Bass Reflex" e "Band Pass" com o mínimo de informação possível. Pior, acho que faz isso bem, pois já comparei os resultados dele com outros bem mais complexos e foram muito próximos, inclusive a curva de resposta.

Usei um Vas (resistência que as suspensões aplicam sobre o cone ao ar livre, comparando essa resistência a uma massa de ar em litros) pequeno: 0,5 litros e o Qts (fator de qualidade total do alto falante) adotei 0,8, algo médio alto. A frequência de ressonância Fs deixei 100 Hz mesmo. O diâmetro do alto falante medido foi 6,4 cm e o Xmax, no olho, pareceu uns 3 mm.

Para o cálculo da caixa dutada não havia porque usar outro fator de qualidade (Qtc) que não o tradicional 0,707 e estabelecer o amortecimento crítico. Como estava pensando em algo pequeno, com um duto apenas, o diâmetro perto de 3 cm fazia sentido. Claro que fiz várias simulações, estes valores adotados foram os que mais gostei.

O programa retornou que o volume desta caixa deveria ser 4,62 litros, ela responderia a cima de 77 Hz (duvideodó) e o comprimento da porta deveria ser de 6,5 cm para que a frequência de corte ficasse em 70 Hz a -3 dB.

Infelizmente não consigui gravar o gráfico da simulação, meu telefone não tem salvador de tela e não tenho outro para fotografar, mas a curva é bem simples, são leves os picos. O primeiro está nos 75 Hz e deve ser o duto, o segundo está nos 150 Hz e é poco aparente, deve representar o alto falante. Entre eles há um leve vale que deve chegar a -2 dB nos 110 Hz e o maior ganho é de 1 dB aproximadamente perto dos 190 Hz.

O que ainda seria possível para melhorar um pouco esta caixa? Resolvi montar na forma Down Fire, ou seja, com o alto falante posicionado para baixo e o duto em uma lateral, desta forma poderia ficar encostada em uma parede e o ar na frente do alto falante, contido pela superfície de apoio, daria alguma resistência extra ajudando o controle do cone e quem sabe um reforcinho nas baixas.

Tá, mas e a forma? Ai o Diabo veio e fez o que sempre ele faz... lembrei que tudo ainda deveria ser mais ou menos bonito sem a sorte ajudar. Pensei, pensei, desenhei, desenhei, repensei, nada...

Apelei para o I-Ching, faço isso seguido e sugiro a todos: com a pergunta "que forma" serenamente na cabeça cliquei as varetas virtuais e pimba:

Vi o projeto desenhado no hexagrama!


Só estava de cabeça para baixo, óbvio, mas não é assim que fica a china? A Terra era a estante, o piso, o suporte e o fogo o mini system.

Coméquié? 

O Mini System deveria ter a forma de um paralelepípedo!

Simples assim: a caixa Bass Reflex no fundo, suportando as satélites encaixadas na sua frente, de forma que pudessem ser afastadas ou destacadas e afastadas mais, quando uma noção estereofônica mais forte fosse requerida.

Como o volume da Bass Reflex - Down Fire deveria ser aproximadamente 5 litros, para se poder descontar o alto falante e o duto, então as duas caixas satélite não poderiam somar um volume muito diferente. Esta restrição permitia duas caixas seladas mais ou menos quadradas ou duas mini torres fixadas na horizontal, escolhi essa opção pela beleza... o Diabo novamente complicando tudo: as mini torres seriam Linhas de Transmissão.

Para harmonizar as dimensões pela proporção áurea de 1,62 fiz um monte de contas e no fim tive que aceitar alguns comprometimentos: a profundidade da caixa Bass Reflex deveria ser tal que coubesse o alto falante e sua altura deveria ser um poco menos que a metade de sua largura.

Nas TLs não daria para usar uma seção longitudinal com área equivalente ao dobro da soma dos SDs dos alto falantes e para responderem bem das médias baixas em diante, teriam que ter um comprimento mínimo de linha bem estofado, para que reforçasse os 100 Hz, pois os poucos dados técnicos disponíveis indicavam haver SPL suficiente acima dos 500 Hz indo até os 16 KHz. Não é, mais ou menos, o que se consegue ouvir depois dos 40 anos? Eu, com certeza, muito menos!

Na configuração de linhas dobradas, para sintonizar em 90 Hz, precisariam ter um comprimento interno de 97 cm e isto implicaria em algo perto de 50 cm por fora, uma medida muito grande para a largura da Bass Reflex. Novamente houve um pequeno comprometimento da qualidade.

SketchUp horas depois ficou assim:





No detalhe a caixa Bass Reflex Down Fire. O volume interno final ficou em 5,18 litros, descontados o duto de 0,15 litros e o alto falante, o volume líquido final ficou no entorno dos 4,7  litros. A caixa, por fora, mede 43,5 X 19 X 11 cm, um tamanho bom para um Mini System compacto "pero no mucho". Todas as paredes possuem uma espessura de 15 mm (era 19 mm) exceto a frente da Bass Reflex dimensionada com 25 mm para encaixar e suportar as TLs. A parede do duto foi reduzida para 6,5 cm na versão final da caixa.


As TLs estão detalhadas abaixo. Tive que sacrificar a câmara inicial e apenas os alto falantes foram deslocados do início da linha, isto diminuiu a resposta nos médios altos, mas não se configurou  como um grande problema, pois normalmente eles são até excessivos.

O comprimento total da linha também não atingiu os 97 cm como pretendia, para ajustar as dimensões às da caixa de Bass Reflex o comprimento interno da linha ficou em 75 cm aproximadamente.

Sem nenhum estofamento interno a sintonia seria 115 Hz, o que já seria razoável, mas com lã na primeira parte e a curva (60% da linha) possivelmente elas cheguem nos 100 Hz, pois a velocidade do som reduz quando a constante de viscosidade do meio se elevada - o limite teórico seria 50 Hz, mas possivelmente o excesso de estofamento acabaria abafando o som e reduzindo a qualidade.



A proporção de afinamento da linha, por conta das dimensões externas restritas, igualmente ficou aquém do desejado e arrastou a relação início (ou garganta) e boca com ela: as áreas de cone (Sd) de ambos os alto falantes somadas resultam em  70 cm2, logo a TL deveria iniciar perto dos 140 cm2  (Sd + Sd ) e isso foi impossível, da mesma forma a área da boca não atingiu 100 cm2.

A área inicial das TLs ficou restrita a 50 cm2, sem câmara e sem garganta, e a boca tem quase 10 cm2 - uma redução entorno de 5:1, algo pesada quando o usual 1:3 ou menos.

Com estas concessões à forma a sonoridade das TLs empobreceu um pouco nos graves e na região dos médios altos e por não terem Tweeters, as frequências mais altas, acima dos 18 Khz, ficaram muito fracas. Para ajudar, a caixa de graves teria que subir acima dos 400 hz, mas o alto falante não é tão bom e se ela receber muita potência começa a distorcer bem antes disso.

O projeto, então, se não contemplasse as preocupações estéticas relatadas, teria as TLs com o comprimento da linha interna de pelo menos 90 cm, iniciando em uma câmara atrás dos alto falantes com uma área seccional perto de 140 cm2, que iniciasse a se estreitar na altura da metade do segundo alto falante, onde se configuraria uma garganta que seguiria diminuindo até a boca, onde a área seccional não seria maior que  100 cm2, por fim, 2/3 da linha seriam estofados e a câmara também receberia uma camada de espuma nas paredes.

Se sabia, porque não arrumou antes? Ora, os comprometimentos estavam claros na fase de desenho e cálculo, mas se não montasse o sistema. como poderia comprová-los na prática? Escutei um dia desses que só existe fracasso se a gente não aprende nada, então, na pior das hipóteses o resultado seria mediano e Mini System serviria só para diversão, mas eu aprenderia um pouco mais. Risco justo.

E agora José?


Amplificador na mão, alto falantes na mão, bastava encomendar os cortes em MDF... só que não, pois tudo não ocuparia um quarto de uma chapa e não dá para fazer protótipos em série.

Resolvi fazer em madeira e para não pesar muito, nem ficar caro, mudei o cálculo original de 19 mm de espessura para 15 mm e defini o corte das seguintes peças retangulares:


Com as medidas em punho fui no Fábio, um artesão, marceneiro, artista e amigo, além de vizinho aqui na Borrússia e perguntei se ele não cortava essas madeiras para mim. A sorte voltou e em pouco tempo ele achou um monte de recortes velhos de Cedro ( título o "É Cedro que Podes..." vem de uma infeliz tentativa de piada de um outro amigo chamado Zeca...) muito lindos e bem secos. Abaixo as fotos antes e depois de desempenar, a plainar e cortar.


A montagem iniciei pela furação e para os alto falantes apenas precisei comprar uma broca copo de 71 mm, pois a de 66 eu já tinha, em seguida cortei as peças dos pés que são as únicas em ângulo para conformam as curvas da linha. O amplificador também exigiu um buraco grande e quadrado, que foi feito a partir de quatro furos de uma broca 12 mm em cada canto, depois ligados em corte com a serra Tico-Tico.


O Cedro é uma madeira macia e boa de trabalhar, porém lasca e racha fácil, além do seu pó ser um tipo de rapé - se não trabalhar de máscara é dureza. Nesta foto está uma montagem provisória para ver como ficou o conjunto e testar o som sem estofamento (um horror).


Por fim, muita lixa 280 e acabamento com 320, pintar com verniz PU de assoalho do lado de fora e com tinta emborrachada Batida-de-Pedra por dentro, três e duas demãos respectivamente e esperar tudo secar.





Usei parafusos pretos como acabamento e todas as junções foram bem coladas . Quando aparafusei os alto falantes nos furos tive muito cuidado de não passar o anel de vedação deles para o lado de fora, deixando sempre todo o diâmetro das carcaças em contato com a madeira para evitar vazamentos.

Antes de fechar as tampas frontais com os alto falantes apliquei lã natural nas TL e no interior da Bass Reflex, pensei em colar alguma manta fibrosa nas paredes, mas a potência é tão pouca que dispensei e não pareceu ter fito falta mesmo. Quando testei com a lã o som foi completamente diferente do barril anasalado de antes.

Dica: vai atrapalhar em uma desmontagem de manutenção no futuro, mas ajudou muito colar as bordas das caixas com fita dupla face de espuma. Elas ficaram muito bem seladas e isso foi extremamente importante para a qualidade delas, pois a superfície da madeira é muito mais rugosa e imperfeita que a do MDF, ou mesmo de um compensado naval.

Na foto ao lado também se pode ver notar o capacitor de poliester que apliquei no "mini-qualquer-coisa". Ele tem 3,36 microfarad e sob uma impedância de 4 Ohms deve estar cortando por volta dos 12 KHz. Poderia usar os crossovers chineses que estão dando sopa na minha gaveta, mas não acho que fossem fazer muita diferença neste projeto e iam encarecê-lo muito.

Os capacitores não fizeram muita diferença no som, é verdade, e talvez eu tenha que admitir um dia o erro de ter usado os "mini-qualquer-coisa" ao invés de Tweetrs... exigiram mais potência e implicaram na elevação da impedância, pois se os ligasse em série ela seria menos de 2 Ohms, muito baixa para o amplificador, em paralelo eles a elevaram para 8 Ohms - alta, mas segura.

Tudo montado, apenas ficou faltando voltar no Fábio para fazer as guias de encaixe das TLs na Bass Box, Acho que se usar uma tupia e uma fresa Rabo-de-Andorinha para fazer trapezoidais na tampa da Bass Reflex de 25 mm e fazer as guias em uma madeira mais dura para colar e aparafusar costas das TLs vai ficar bom.

Falaram finalmente!

Na hora do pipoco a sorte foi um amparo e eles falaram bem, mas como já comentei antes, senti os graves com pouca extensão, possivelmente pela baixa qualidade do alto falante da Bass Reflex e a sobra de potência que recebe ao ter 4 Ohms de impedância em mono contra os 8 das TLs que usam dois canais.

Glue vs HornResp
A sintonia da caixa Bass Reflex parece ter sido acertada, pois o Xover do amplificador muda muito o resultado do meio de sua graduação (mais ou menos 60 hz) para o máximo de 150 Hz, por outro lado a disposição Down-Fire do alto falante não influenciou muito.

As concessões estéticas cobraram seu preço nos médios também, pois percebi uma certa falta na região da voz, possivelmente pelas TLs não terem câmaras traseiras e terem ficado muito estreitas, mas a definição e os ataques estão acima do esperado. Quando as testei sem o estofamento eram quase barris falantes, depois melhoraram muito, mas não estão baixando a mais de 100 hz.

#gatochato chateando
Em resumo, a brincadeira rendeu um Mini System bom para som ambiente, onde não for requerido muito volume e se for usado para escutar música sem muita pretensão de fidelidade e baixos encorpados fica muito bom.

Para o bem e para o mal, a minha impressão final foi que o som dele ficou igual ou melhor a muitas opções comerciais que se acham por ai custando bem mais que R$ 500,00. Eles tocam o suficiente para agradar e não vão incomodar nenhum vizinho. Nas frequências em que a resposta está boa os transientes e o ataque são excelentes e depois que ele amaciar vai melhorar bem mais. Vou medir um dia.

O que se destacou mesmo foi o inusitado da madeira, já que não se vê caixas assim. Tinha medo que ressonariam demais e que poderiam tocar muito diferente uma da outra, etc... Nada, como a potência é pequena, não ficou fácil perceber uma contribuição indevida da madeira e é impossível não se maravilhar as vendo brilhando, com os veios da madeira natural a mostra em um conjunto de medidas e proporções bem harmoniosas.

Tem Concerto ou Conserto?


Sim, ambos!

O Mini System encara música clássica e jazz, assim como MPB e samba em volume e qualidade comportados, mas se quiser ouvir Jacó Pastorius no 10 elas não vão ser agradáveis. Igual se usar elas para rock pesado, forró, eletrônica, pois vai faltar SPL e a extensão nos graves complicará com distorções, além da falta da ponta final dos agudos que vai deixar as guitarras e os pratos um pouco vazios, mas também nunca foi um projeto Hi Fi, então não se pode reclamar tanto.

Como pude identificar os dois furos mais embaixo: o alto falante de graves muito limitado e as TLs com impedância muito alta, creio que vou mudar o projeto no futuro para corrigir isso tudo.

Usar, ao invés da Bass Reflex, uma Air Coupler com dois alto falantes de 6,5 polegadas um pouquinho melhores em push-pull deve levar os graves até os 50 Hz e a impedância do sistema casará em 8 Ohms, ai um novo amplificador e Tweeters sobre as TLs devem resolver o resto.



Teste de Campo


Meu celular é péssimo! A gravação ficou bem pior que na vida real, mas sério, o Mini System não desapontou completamente, só não lacrou e olhando para o custo benefício, acho que valeu muito a pena, pois gastei 100 dólares (R$ 350,00) e só de terapia eu economizei vinte vezes mais...



Cedre-se