domingo, 20 de agosto de 2017

A matemática e a marcenaria de um Sistema 2.1 de caixas de som TL DIY

Os anos setenta nem tinham dado e os oitenta só prometiam que eu iria me perder por aí quando, numa tarde quente, descobri que meu irmão e alguns amigos estavam fazendo um par de caixas de som. Gravei aquelas cenas para toda vida, foi uma revelação e tanto quando aquelas coisas mágicas que faziam o som da eletrola do meu Pai, que tanto eu desejava ver como eram por dentro, viraram mundanas, estavam ao alcance e até podiam ser construídas.

Na época não sabia que eram caixas Bass-Reflex de três vias com alto falantes e Tweeters da antiga e pioneira Selenium. Não sei se ainda existem, mas ficaram penduradas no "quarto de estudos" por muitos anos... as perdi de vista em meados de 1996 quando, sem desconfiar de que alguns meses mais tarde estaria morando no Amapá e nunca mais voltaria para a quela casa, eu iniciei uma reforma na garagem que nunca terminou e as guardei na casa da minha Tia, mas é bem capaz que elas ainda estejam por lá.

Desde então perdi os graves na minha vida e mesmo comprando mais de uma dezena de "mini systens", "mid systens" e outras tralhas sonoras nunca consegui preencher o vazio sonoro da falta delas e pode ser por este motivo que em 2006 comecei a pensar em construir caixas de som na solidão de Brasília.



Nessa época baixei um monte de livros e manuais sobre alto falantes, projetos de caixas, sonorização de ambientes, engenharia de som e por ai vai. Até um pouco de eletrônica estudei enquanto lia o Dickason no original, debulhava o Youtube e minerava foruns de discussão; mas ficou na teoria, me faltava uma "garagem de homem" e não podia ir para a prática.

Quando vim para Osório e comecei a resolver o caso da garagem e pude retomar os estudos sonoros. Foi então que as caixas de som tipo Linhas de Transmissão chamaram a minha atenção pela matemática peculiarmente simples e complexa ao mesmo tempo. Fiquei curioso, pois nunca tinha visto ou escutado um bicho destes, muito raros no Brasil do Pancadão.

Este ano consegui passar o sonho a limpo e posso contar um pouco da estória delas, que inicia pelos sábios ensinamentos do Balu:

"Eu uso o necessário. 

Somente o necessário. O extraordinário é demais. Eu digo necessário, Somente o necessário, Por isso é que essa vida eu vivo em paz"


Construir caixas de som tem algo de sagrado, não parece combinar com ostentação e fetiches, embora muito se veja por ai, principalmente neste universo paralelo dos audiófilos "audiotas" competitivos, capazes de comprar cabos de milhares de dólares e equipamentos que custam apartamentos.

Tinha que declarar a necessidade de enfrentar os mitos para construir algo verdadeiro e fazer deste sonho uma forma de aprendizado pessoal.  A primeira decisão foi focar no essencial, pagar apenas por produtos honestos e verdadeiros e pesquisar ao máximo todas as alternativas, desconfiando de tudo, sempre. Foi assim que comecei a busca dos alto falantes pelo mercado não convencional, evitando os sites muito lindos, os especialistas muito eloquentes e os templos especializados em som junto com seus profetas.

No Aliexpress os preços eram bons, mas o peso destes produtos parece inviabilizar o frete de pequenas quantidades, além de raramente os parâmetros estarem disponíveis e isso implica em voo cego, algo que só os morcegos e os patos da Fiesp gostam.

Dentre os fabricantes nacionais as opções eram essencialmente para som automotivo, os quais, via de regra, são um pouco ruins para caixas de som "home", exceção possível são os produtos da NAR Audio, que servem de base para o único projeto comercial de caixas Linha de Transmissão brasileiro, as famosas Baubo. Elas são assinadas pelo Renato Lyra, um nome acima de qualquer suspeita no meio DIY Audio nacional e só não os adotei porque estouravam a meta dos trezentos reais que me impus para não irritar o Balu.

Virou e mexeu, estava quase desistindo da meta quando achei o site do José Souza, um carioca atencioso e apaixonado por som que comercializa alto falantes, cabos, kits, etc. com preço justo e de forma honesta. Ele tem uma loja virtual direta chamada Souza Custons, e também usa o Mercado Livre, onde é possível economizar um pouco no frete. Foi a salvação, já que ele importa quantidades maiores e consegue um preço bem melhor pelo frete diluído, além disso, boa parte dos alto falantes têm os parâmetros medidos e publicados de forma sincera. Comprei o Kit para um sistema 2.1 por menos que a meta em maio deste ano e superei minhas expectativas em um Subwoofer pequeno, mas cumpridor!

Este kit vem completo para montar duas caixas pequenas Bass Reflex de duas vias e um Sub passivo, inclusive traz capacitores para os Tweeters, dutos e plugs. Montar conforme as recomendações foi a minha primeira ideia, cheguei a fazer os cálculos de volume, mas mudei de ideia ao ver no YouTube a avaliação muito positiva feita pelo Renan Lopes, responsável pelo projeto inovador Estudo do Audio.

Pausa: recomendo enfaticamente a inscrição neste projeto para todos que se interessem em apreender sobre áudio com alguém que tem experiência e conhecimento teórico de sobra. 


Como ele mediu os alto falantes ao vivo e bateram os dados com o que estava no site, me convenci de que aqueles "midibasszinhos" iam além da BookShelf recomendada pelo Souza e mudei o projeto.

To boldly go where no man has gone before


Masá! Agora só faltava o desenho da caixa e navegar um pouco foi preciso. Pensei em copiar as Balbos, o que não seria feio, pois o Renato disponibiliza gentilmente as plantas, embora venda o kit também - seres de luz e de som fazem assim, só não fui por ai porque havia diferenças significativas entre os meus alto falantes Eastech e os Nar Audio dele.

Lembrando do quadro do Touro do Picasso, resolvi buscar inspiração na internet.

O Ministério do Vai dar Merda Alerta que é sábio ir do complexo para o simples.

Encontrei projetos e desenhos lindos, mas tão cheios de dobras, cortes e recortes que demandariam horas e horas de marcenaria e muito dinheiro, por outro lado, aqueles que se mostravam simples, eram por demais simplórios e dificilmente poderiam ser obra que alguém que dominasse a matemática necessária deste tipo de caixa.

Estava decepcionado quando encontrei na seção DIY do Speaker Building, onde realmente tem coisas muito boas e bem explicadas, a inspiradora OA-Transient II que me convenceu da existência de um caminho simples e de bons resultados neste mundo DIY Audio.

Sua solução inteligente e inédita de base, feita com apenas duas peças, que além de formarem os pés, moldam uma passagem facilitada para as ondas sonoras e o ar na dobra do duto é brilhante e eu queria muito ter tido esta ideia. Só não copiei o projeto porque ele é vendido e coerentemente com o caminho do touro, devia ser o máximo desconstrutivo possível: já tinha as as linhas gerais do design na cabeça, precisava, apenas, encontrar uma forma ainda mais limpa e uma estrutura ainda mais simples para construir minhas TLs.

Half Mile Cars and Quarter Wavelength Loudspeaker


Um carro de racha destes deve correr 800 metros contra o relógio e só os bons ficam abaixo dos 10 segundos. Não vai cair no Enem, mas eles atingem a média de 288 Km/h, quase 85% da velocidade do som e também não serve para desenhar TLs, mas introduz suas ideias mais básicas: há um trajeto a ser percorrido com uma velocidade determinada para atingir um determinado fim.

Os alto falantes tocam para os dois lados, emitindo ondas sonoras em fases distintas conforme o cone se move para frente ou para trás e as Linhas de Transmissão (TL) usam as ondas sonoras traseiras do alto falante para melhorar a performance, como se fossem um turbo, porque as conseguem por na mesma fase das ondas frontais quando elas se encontram, evitando cancelamentos e promovendo um acoplamento sonoro que eleva o volume, ou Pressão Sonora  (SPL) de determinadas frequências que seriam dificilmente percebidas.



Baubo

Para fazer isto elas possuem um duto comprido responsável pela sintonia da caixa, por onde as ondas sonoras traseiras são escoadas contidamente durante um tempo suficiente para que sejam atrasadas em um quarto de ciclo e assim entrarem em fase com as ondas dianteiras. Normalmente o duto tem o tamanho de um quarto do comprimento de onda da frequência de ressonância do alto falante (parâmetros Fs), pois esta é a mais baixa frequência gerada com energia suficiente para percebida dentro da faixa de sensibilidade dele. Este é o motivo pelo qual as TL também são conhecidas como caixas de um quarto de onda (Quarter Wavelength Loudspeaker).

Simples assim, só que não!


O ouvido humano nos permite perceber sons de 20 a 20.000 Hertz (Hz) e como as vibrações são para todos, se deve lembrar que a melhore caixa de som do mundo não vai produzir som, ela só pode reforçar e harmonizar o que foi gerado pelo alto falante e de uma forma geral, todas seguem alguns princípios: 
  • Ondas sonoras de frequências mais baixas precisam de mais energia para alcançarem o mesmo volume sonoro percebido por alguém.
  • Para tocar música o amplificador gasta 60% de sua potência gerando os graves, não mais que 30% para os médios e o restante para os agudos. 
  • A propagação do som não guarda linearidade, ou seja, quando nos afastamos da fonte sonora a intensidade do som cai muito mais rápido do que aumenta a distância, tanto que a medida sonora denominada decibel (dB) possui uma escala logarítmica que desenhada em um gráfico resulta numa curva e não uma reta.
  • Em termos práticos para manter o mesmo volume ou pressão sonora percebido por um ouvinte se ele se se distanciar mais a metade do caminho até a fonte sonora, será preciso aumentar a potência no dobro.
  • O nosso ouvido não é igualmente eficiente para todas as frequências, pois ouvimos muito melhor entre os 1.000 e os 10.000 Hz, onde se situam os comprimentos de onda típicos da fala e por isso os telefones são sintonizados nesta faixa, donde vêm o completo fracasso deles para reproduzir música pelo seus alto falantes pequenos.
  • As pessoas são capazes de perceber variações no volume ou pressão sonora apenas acima de 03 decibéis para mais ou para menos e para gerar uma elevação desta monta o amplificador deve aumentar a potência em duzentos por cento. Um amplificador de 100 Watts só é efetivamente mais potente (gera mais SPL) 5 vezes que outro de 3 Watts!
  • Ondas sonoras trazem no primeiro segmento, que corresponde a 1/4 do seu comprimento total, todas as informações originais, as quais são repetidas nos três quartos seguintes, primeiro por decrescimento e em seguida, na metade final, por espelhamento na mudança de fase (sinal).

Para calcular uma TL com alguma chance de sucesso, na verdade duas, já que uma será o Subwoofer e a outra o Mid Bass do Kit foi preciso chamar os universitários.

Muita teoria e um método de cálculo acurado para estas caixas pode ser encontrado no site mantido pelo Martin J. King chamado Quarter-wave, está em inglês, mas com boa vontade e alguma sorte o Google Translate consegue ajudar. Ele também comercializa um software bem completo para o cálculo das TLs, pois as coisas complicam quando são usados dois ou mais alto falantes, são escolhidos locais diferentes para eles no duto e usados materiais distintos para preenchê-lo.

Este software é meio caro para nós e como foi escrito em Math Lab custa mais caro ainda, pois precisa deste programa matemático para funcionar. Ocorre que seres de luz e som ajudam mesmo, e no seu site também se pode obter uma planilha capaz de fazer toda a parte básica dos cálculos. Creio que ela foi produzida por um colaborador chamado Bjorn Johannesen, que também assina um ótimo texto explicativo de como funciona o software do Martin.

Uma fonte em português é o livro Caixas Acústicas e Alto Falantes do Dickason, traduzido pelo Homero Silva e comercializado pela Sheldon na sexta edição revisada e ampliada. Ele vai muito além das TLs, embora sobre elas apresente integralmente o método clássico que Augspurger  realizou em meados do século passado e que serve de fonte para quase todo mundo, pois até ele, não havia um modelo matemático que simulasse o funcionamento de uma TL de forma consistente.

Vale a pena, ainda, visitar o site mh-audio-nl onde há 60 ou mais calculadoras para quase tudo que se precisa em sonorização, duas dedicadas ao cálculo das TLs, uma especialmente interessante porque ajusta o tamanho do duto em função da variação da velocidade do som (pode ser calculada em outra página) causada pelo material de preenchimento do duto. Algo que pode parecer uma firula, mas é fundamental para a sintonia da caixa se lembrarmos que a distância a ser percorrida por uma onda sonora em um duto é uma função do tempo e da velocidade do som uma vez que a aceleração pode ser desprezada.

Se alguém achar mais informações e fontes, por favor, me avise e se quiser disponibilize nos comentários, só molhamos o dedo neste oceano.

As Três Moiras


É costume as pessoas darem nomes às coisas que criam e as caixas de som não fogem da regra, já falei das Balbos, da OA-Transient II, mas tem também a D'apolito e muitas outras, inclusive de outros tipos, como a famosa Euclides que hoje está em guerra com as Full Trap pelos paredões nacionais.

Quem conhece um pouco de mitologia clássica deve lembrar das três irmãs temidas até por Zeus, pois fiavam, teciam e cortavam a linha da vida sem ninguém poder impedir e merecem uma homenagem. Vou chamar minhas TLs  de Moiras, as MID são Cloto e Láquesis e a Sub Átropo, porque é matadora.

Elas começaram pelos parâmetros dos Mid Bass e do Subwoofer vs algumas regras que fui juntando das várias fontes utilizadas e em especial o texto do Risch:

  • A sintonia da caixa deve ser 5 a 10 Hz abaixo da Frequência de Ressonância (parâmetro Fs) do alto falante se a qualidade total (parâmetro QTS) dele muito maior que 0,35 e se ela for próxima ou menor, então a sintonia da caixa deve ser 5 a 10 Hz acima da Fs do alto falante.
  • Uma TL inicia em uma área fechada, abaixo dela há uma câmara ligada ao duto pela abertura inferior denominada garganta e ele se estende e afina (conicidade) até a saída, ou boca:
    • a área da parte fechada (topo) deve ser duas ou três vezes a área útil do cone do alto falante (parâmetro SD).
    • a conicidade do duto deve respeitar uma proporção máxima de 10:1, modelos clássicos usam 4 ou 3:1 entre a área da seção fechada e a boca. 
    • a boca deve ter uma área igual a SD, ou ligeiramente inferiror e pode ter uma porta de abertura regulável para sintonia fina da TL.
  • Os alto falantes devem ficar um pouco para dentro do duto, distanciados do topo entre 1/15 e 1/30 do comprimento total do duto.
  • O duto deve ser preenchido com material fibroso nos dois primeiros terços de seu comprimento deixando no mínimo os 30 cm finais sempre livres. Isto filtra ressonâncias, picos e vazios agindo como se o duto fosse mais comprido. 
  • Cada curva imprime um efeito no duto como se ele tivesse mais três ou quatro centímetros.
  • O volume interno da TL deve ser um pouco maior que o Volume Equivalente do alto falante (parâmetro Vas).

A Planilha do Martin e as duas calculadoras da internet permitiram fazer várias simulações, mas o ponto de partida deve ser comprimento teórico do um duto reto de 1/4 de onda encontrado pela divisão da velocidade do som (344 m/s) por 4 vezes a frequência de ressonância do alto falante:

  • A Fs de 54,7 Hz do Subwoofer indica um duto de 1,57 metro.
  • A Fs de 78 Hz do Midbass indica um duto de 1,1 metro.
Como o desenho permitia incluir uma curva e preenchimento do duto com material absorvente, as simulações resultaram em dutos com comprimentos reais um pouco menores:

  • 1,04 metro para o Sub.
  • 0,88 metro para os Mids.
Pois foram derivados dos dutos efetivos encontrados nas simulações:
  • 1,5 metro para o Sub.
  • 1,05 metro para os Mids.
Com estes valores foi possível definir as linhas básicas das caixas e optar por apenas uma curva no duto, assim as caixas teriam uma forma longilínea e harmônica, sem ultrapassar um metro de altura. O projeto em SketchUp pode ser baixado aqui junto com o plano de corte.



Uma vez calculado o duto e definida a altura era necessário definir a largura e a profundidade. A primeira pode ser definida discricionariamente e 20 centímetros foram a escolha porque é um múltiplo aproximado da altura final das caixas, se for usada a proporção áurea (6 X 1,62), além disso compatibiliza bem com a largura dos alto falantes e é um tamanho bom para manusear e trabalhar. Além disso a profundidade seria parecida ajudando na estética.

O cálculo da profundidade exigiu usar o volume calculado na planilha do Martin (Vb), donde saíram as medidas da garganta e da boca também. Com o  Vb e as demais medidas foi fácil encontrá-la (nem descontei a parede interna): o Sub requereu 0,215 metro e os Mid 0,2 metro. Estas medidas são todas externas derivadas do volume interno que requereu o desconto da espessura do material utilizado para manter a importância do Vas no cálculo das TLs.

Foi escolhido o MDF de 18 mm para a estrutura das caixas porque a potencia do sistema ficou entorno de 100 Watts, assim não requereria travamentos e reforços para complicar a execução.

A Hora do Lego é a Legal!!!!


Tudo calculado e desenhado, com os alto falantes na mão, basta achar um revendedor de MDF que corte com precisão milimétrica (o meu deixou a desejar...). Neste ponto é interessante acrescentar mais duas metas que me impus.

Quando iniciei os estudos de design das caixas defini que elas não poderiam utilizar mais que uma chapa de MDF e que o aproveitamento teria de ser acima de 50%, deu certo, como pode ser visto no plano de corte - as duas chapas de 740 x 740 mm são para outro projeto, aguardem.


O desenho deveria ser o mais reto possível, para que pudesse ser utilizado por qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, uma furadeira aparafusadora e alguns grampos para colagem. Foi por este motivo que não fiz os pés em V como a OA-Trasient II, embora achasse genial a solução, quando me dei conta de que se eu encompridasse o máximo as caixas, poderia apostar que seria desnecessário atenuar os cantos da curva no pé das caixas, mesmo nas Mid, onde as frequências mais altas tenderiam a sofrer mais.

Foi uma aposta que parece ter dado resultado, pois não senti reverberação, nem que o SPL tenha caído, mas de qualquer forma vou testar quando os Crossovers chegarem e eu tiver que abri-las novamente, para isso colei umas curvas com MDF de 3 mm e vou instalar, mal não fará, apenas deve resultar em nada.

A chapa custou aproximadamente R$ 60,00 reais e cada corte R$ 3,00, logo, tudo saiu uns R$ 120,00 incluindo os parafusos e a cola.

A primeira etapa da montagem foi acender uma vela para São Gelásio e seguir com fé marcando os furos dos parafusos com o espaçamento de 5 cm no Sub e 8 cm nas Mids. Em seguida localizei parede interna para estabelecer a proporção entre a garganta e boca, lembrando que ela termina na curva do pé das caixas. Foi fácil marcá-la levando em conta que a curva tinha o raio de 5 cm e que a altura da garganta era o resultado da sua área calculada na planilha dividida pela largura interna (164 mm).

Quando todos os furos foram marcados, inclusive nas paredes frontal e traseira, topo e base, foi realizada a pré-furação de tudo e feitos os rebaixos para as cabeças dos parafusos não ficarem salientes.  A montagem iniciou pela fixação das paredes internas em uma das laterais, passando cola especial para madeira nas duas faces de contato. Também pus cola nos parafusos antes de apertá-los meio das peças para as pontas. Foram usados grampos para pressionar as placas uma contra a outra durante a secagem de 6 horas.


Aqui cometi um pequeno erro ao esquecer de instalar os conectores dos cabos antes da colagem e como tive que fazer isso depois, com as caixas já coladas, isto dificultou o trabalho desnecessariamente e exigiu que eu comprasse uma serra copo específica.

Com as paredes laterais fixadas nas paredes internas foi fácil fixar o tampo, propositadamente externo às paredes laterais, para não repetir a fixação da base que foi feita por dentro das paredes. Pode ser crença, mas como um dos maiores defeitos de caixas mal construídas é a vibração indesejada das paredes externas, é bom se precaver e além de fixá-las solidamente umas as outras, não se deve repetir o mesmo padrão de montagem.

O passo final foram as paredes traseiras, lembrando que para respeitar a proporção calculada da conicidade do duto elas ficaram diferentes no Sub e nos Mids. Rente com as paredes laterais no caso do primeiro e recuadas para dentro no segundo.

Neste momento as paredes frontais já estavam furadas e era necessário fazer as furações para os alto falantes. Os Tweeters tem o diâmetros de uma polegada, os  Mids quatro e meia e o Sub seis e meia, há serra copo para cada um deles, porém são caras, então preferi usar minha Bailarina, que não faz um bom acabamento mas estava na mão, já que tinha serra copo apenas para os Tweeters.

Ai me ocorreu que se fixasse os alto falantes por fora e os Tweeters por dentro da parede frontal aproximaria os centros magnéticos e isso ajuda a diminuir a defasagem das ondas sonoras, coisa boba neste nível de fidelidade, mas não havia motivo para não fazer, apenas exigiria a produção de painéis externos na frente das caixas, mas eles ajudariam muito a quebrar as linhas excessivamente retas do conjunto.

Passei a Tupia por fora em cada furo dos alto falantes e com uma retífica ajustei eles para os aros que possuíam pequenos cantos. Os Tweeters iam ficar fundos e a direcionalidade seria excessiva, assim pareceu interessante fazer um alargamento no furo deles, de forma que passei a Tupia com uma fresa de 45° e depois fiz o mesmo nos painéis frontais. Somando a espessura dos dois notei que criara minicornetas com quase 3,5 centímetros de comprimento, o que pode ser pouco, mas como equivale a 1/4 do comprimento de onda de 2, 4 Khz é possível estarem ajudando um pouco no reforço dos agudos.

Bora pintar!


A chatice da pintura é diretamente proporcional a ânsia de escutar logo as caixas de som... que martírio, mas sabia que se eu testasse tudo antes de pintar elas ficavam daquele jeito para sempre...

Bom, tinha que seguir o figurino, passei massa de para madeira em todas as peças e lixei para alisar as imperfeições, desbastando os erros de colagem. O segundo passo dos acabamentos foi misturar pó do coletor da lixadeira com selador e tapar todos os furos dos parafusos. Ai voltei a lixar, mas com lixa média e depois fina.

Enquanto pensava na cor e no acabamento frontal decidi pintar toda a parte interna com tinta branca emborrachada anti vibração que chamam de Batida de Pedra, gastei uma lata e custou R$ 13,00. Fazendo isso vi que secava rápido e era fácil de aplicar, assim resolvi pintar por fora com o mesmo produto, mas em preto, pois embora o acabamento fosse fosco, com um verniz ficaria bem bonito.

Quando ia pintar as laterais decidi fazê-las com o mesmo acabamento dos painéis frontais que ainda nem sabia qual seria. Pintei de preto os tetos, as paredes frontais e as bases e sentei para pensar nos acabamentos.

Primeiro minha garagem é uma bagunça e estava de saco cheio de chutar uma chapa colada de Pinus que ficava sempre no caminho, não importava o trajeto, então peguei ela e cortei em três para fazer os painéis frontais.

Me ocorreu que nas Mids ficaria bonito um acabamento em meia lua e cortei uma fatia com minha Tico-Tico, só que errei no caminho e o corte foi para dentro ao invés de tocar na quina da tábua, mas não foi o o Leminski quem disse que distraídos venceríamos? Ficou bem bonito este por acaso.

Prensei uma chapa na outra para usar como molde e cortei a segunda pelo avesso. Mais meia hora de lixa elas se encaixaram o suficiente - afinal, um pouco de rusticidade é da natureza DIY.

Olhando os painéis cortados percebi que o detalhe do engano permitia fazer uma peça para o Sub que ia completar o semi círculo sem grande trabalho, só cortar e furar, assim fiz ela e parei, pois ainda não sabia qual acabamento dar nos painéis frontais e nas paredes laterais.

Passei uns dias procurando na internet, queria colar placas de madeira (machetagem) mas o preço era alto demais, então fui no YouTube e no Pinterest buscar gráficos e fotos que servissem para imprimir uns adesivos, mas novamente o preço desaconselhou. Por acaso vi uns videos de artesanato e me caiu a ficha, por que não usar alguma técnica de pátina? Pesquisa feita, escolhi o Falso Couro por ser muito fácil e com algum esforço extra é possível dar algum efeito legal de profundidade que fazem no Faux Bulr.

As laterais e os painéis frontais foram pintados com um fundo, lixados e depois cobertos com duas demãos de tinta PVA laranja. Após a secagem receberam uma camada grossa de Betume a base de água na cor Café misturado a um gel matizador para atrasar a secagem, até que fosse rolado um paninho úmido e macio de malha que produz o efeito estriado. Na finalização foi pulverizado um pouco de verniz para isolar a camada de fundo e por cima foram feitos uns riscos com um vermelho bem vivo, também com PVA, usando um pincel de leque, isto deu alguma profundidade nas peças, mas não ousei muito.

O brilho veio das três demãos de Laca PU para piso e lastimei não ter pistola de pintura, teria ficado bem melhor. Aprendi uma coisa: a laca PU é linda, mas cria bolhas pequenas na superfície que secam e deixam feio o acabamento, para acabar com elas basta passar uma pistola de ar quente logo depois de pintar, elas e estouram na hora.

A Hora do Pipoco!


Bora Montar!

Não tem mistério no recheio das caixas, foi colar a espuma nas paredes envolvendo os drivers e preencher com fibras, usei lã natural, o espaço livre até dois terços do comprimento do duto interno, cuidando para que pelo menos os últimos 30 centímetros antes da boca fiquem livres.

Afim de evitar que a lã se desloque com o tempo, pinguei um pouco de cola nas paredes antes de assentá-la e prendi alguns parafusos para tramar as mechas de lã sem apertar.

Como as paredes frontais já estavam pitadas, apenas aparafusei os Tweeters por trás e os alto falantes pela frente vedando seus aros com uma cola de silicone.

Com os drivers fixos nas tampas cortei o cabo paralelo em cinco pedaços de um metro cada e soldei três deles nos contatos dos Mids e do Sub. Depois soldei os capacitores nos polos positivos dos Tweeters e os cabos restantes neles.

A última coisa foi soldar os cabos em paralelo, conforme as polaridades, nos bornes. Desta forma a a impedância das caixas Mid ficaram em 3 Ohms e a do Sub em 6 Ohms.

Como as potências ficaram em 45 Watts nas MIDs (25 do Midbass e 20 do Tweeter) e 60 Watts na Sub elas casaram como uma luva no amplificador Ching-Ling 2.1 que tenho e alega  entregar 100 Watts por canal e 150 para o Subwoofer sob impedâncias de 2 a 8 Ohms.

Restava apenas aparafusar as paredes frontais e sobre elas os painéis com parafusos pretos para melhorar a estética.

Liguei esperando o pipoco do curto circuito, ou o esturro do aterramento, mas milagres correm com coisas bobas também! Saiu um som muito bom, consistente, agradável em volume e com muita definição e ataque nas subidas dos rocks que eu gosto. Após ajustar no amplificador para cortar o Subwoofer tudo arredondou maravilhosamente.

Dindim & Tim Tim:


Os alto falantes e as chapas custaram R$400,00.
As tintas, lixas e pinceis utilizados no acabamento acrescentaram mais R$ 80,00.
A montagem final ainda exigiu alguns metros de cabo paralelo de boa qualidade que custaram R$25,00, quatro novelos de lã natural a R$ 12,00 cada e uma placa de espuma acústica que custou R$ 35,00.
Os pés foram feitos com doze porcas garra e doze parafusos Alen que custaram R$ 12,00.
Estimo que em tinta tenha gasto uns R$30,00

Somando tudo, creio que as caixas de som devem ter atingido um custo final perto de:

R$ 630,00

Nenhum dos meus aparelhos de som custou menos que isso, nenhum deles toca tão bem quanto as TLs: estou feliz e triste ao mesmo tempo.

Cloto, Átropo e Láquesis.

"OVA-SE"!







  

sábado, 15 de abril de 2017

A Vida Lumbersexual e Suas Invenções Maravilhosas

Tenho me esforçado para postar menos sobre culinária e mais sobre coisas que podem salvar o dia de um sitiante acidental, afinal há vida fora da cozinha, e como o inverno já vai começar, estou com muito trabalho atrasado no sítio, inclusive cortar lenha para quando o frio chegar aqui na Serra da Borrússia.

Atenção, reclame legal:



  • Art. 56, Lei 12.651/12 regra o uso das reservas legais (e dos remanescentes) para a extração de madeira e lenha para consumo próprio nos imóveis considerados como pequena propriedade ou posse rural familiar, ou seja, aqueles que tenham extensão de até 4 módulos fiscais e ela só se aplica aos produtos madeireiros de árvores nativas; pinus, eucalipto e outras exóticas não possuem restrição, mas cuidado, pois houver um subosque nativo bem desenvolvido, é bom tirar licença e talvez algum replantio seja exigido pelo impacto causado.


Então não é necessária nenhuma autorização dos órgãos ambientais competentes para a retirada de madeira nas propriedades familiares, desde que não haja comércio dos produtos madeireiros, tão pouco transporte para fora da propriedade e alguns limites anuais sejam respeitados:

  • A quantidade retirada não pode ultrapassar dois metros cúbicos por hectare, e no total, o manejo madeireiro não poderá comprometer mais de 15% da biomassa da Reserva Legal, nem superar a 15 (quinze) metros cúbicos de madeira, independente se o uso será em lenha para queimar ou em madeira para benfeitorias.


Não transite com lenha por ai, vender nem pensar, e não corte mais que 15 metros cúbicos por ano, nem tire mais que dois metros cúbicos de um hectare, o que leva a uma pegadinha: só propriedades com 7,5 hectares ou mais podem cortar 15 metros cúbicos por ano. Ou seja, se você é minifundiário, passe frio, compre lenha, plante eucalipto ou tudo isso junto.

Outra coisa, como é muito difícil distinguir entre madeira de árvores caídas e cortadas, priorize sempre as primeiras e tente deixar o mato em paz, mais da metade da lenha que uso aqui vem de árvores derrubadas pelo vento, ou que simplesmente morreram. Sim, isso dá mais trabalho, mas compensa.

Voltemos ao assunto. Cortar 15 metros cúbicos de lenha não é trabalho fácil, e para comprar tem que ter uns R$ 3.000,00, como nem todo mundo tem isso tudo, eu inclusive, então o jeito enfrentar a pedreira, e aproveitar que o visual "lumbersexual" tá na moda, mas cuidado, se virar "hipster" tu não me conhece, nem leste este blog ...

http://www.citypages.com/arts/meet-the-lumbersexual-hes-part-hipster-part-metrosexual-all-sartorial-man-6592215

Para enfrentar este desafio, antes de pegar no machado e posar, preferi pesquisar no GuruTube o que andavam fazendo para facilitar o trabalho do lenhador solitário. Veja este vídeo que me inspirou pela praticidade da enjambração:




Aproveitando os princípios da permacultura que dizem que a gente deve reciclar antes de tudo, e nesta crise isso é mais que necessário:

Partiu Ferro Velho do Sebastião, aquele que não te deixa na mão.... 

Por R$ 50,00 reais comprei uma estrutura de ferro já galvanizada e bem forte, mais umas abraçadeiras de ferro, também galvanizadas, e um pedacinho de cano de 3/4 polegada.

Cortei uma parte do pé da estrutura de ferro que deveria ser para fixar algo na horizontal em uma tubulação e a coisa parou de pé, virando um cavalete. Ai cortei duas abraçadeiras e com as laterais fiz extensores para serem aparafusados em cada braço do cavalete.

Estrutura transformada em cavalete com as garras já adaptadas.

Parti em quatro o cano de 3/4 de polegada e nas abas da abraçadeira que sobraram fiz uns dentes para cravar na madeira, ai foi passar uma barra roscada de 3/8" ou algo assim, entre os furos dos extensores e nela colocar os pedaços de tubo alternando, como espaçadores, com os dentes. Na imagem abaixo fica bem fácil ver este detalhe.


Extensor com a barra aparafusada (uma porca de cada lado), canos como espaçadores e os dentes cortados nas abas das abraçadeiras que sobraram.

Como sempre digo, quem guarda sempre tem! 

Tem um monte de tralha para por fora... 


A foto do resultado do cavalete está abaixo em teste, no qual usei um tronco que pesava pelo menos uns 20 kg, com 1,5 metros e pelo menos 25 cm de diâmetro de uma pitangueira que anos atrás foi cortada porque estava derrubando o mudo da casa da minha avó em Porto Alegre, eu a trouxe e deixei estocada para fazer alguma coisa, pois a pitangueira é uma das madeiras mais lindas que conheço, além dos galhos finos servirem de lenha no churrasco por darem um gosto especial na carne sem defumar demais.


Eesta pitangueira, embora tenha pego até cupim nestes anos todos - nos pés do cavalete podem ser vistas algumas bolachas que foram cortadas para isolar estes "bixinhos" - permitiu tirar umas tábuas pequenas.


Eis uma gamela que fiz deste tronco e tem me ajudado muito, pois além de linda, ficou ideal para cortar o salsichão da Borrússia e servir com farinha, sem voar e sujar tudo. Ainda há madeira para tentar outros modelos, penso nuns pratos ovais. Só esta gamela já valeu mais que todo o investimento.

Gamela 30 X 20 X 5 cm.

Tá, mas ai vem os críticos deste blog e contra os milhões de "likes" e milhares de comentários lindos alguém vai dizer "bonito, mas só funciona se forem toras grandes...".


Calma, não é assim: dois ou três galhos com diâmetro menor podem ser postos junto e um galho pequeno embaixo, deixa qualquer coisa na horizontal, mas de qualquer forma vale a crítica e a motosserra tem que estar na mão, ela pesa para burro, treme, faz barulho, etc., assim se teve que tentar outra coisa.

Cavalete para Motosserra:


Depois de usar meu Cavalete Tubarão (aceito sugestões de nome e pedidos comerciais...) por algumas horas, cheguei a conclusão que, de fato, o caminho ainda estava pela metade e precisava de algo mais ágil, mais fácil para trabalhar sozinho e mais eficiente.

Voltamos ao GuruTube e achei outro modelo de cavalete, só que este era para a motosserra. Vejam a coisa legal do tal "Chainsaw Holder":




Partiu Ferro Velho do Sebastião, aquele que você já sabe, pois reciclar é fundamental. Numa pilha de tubos e ferros havia estas chapas dobradas em U, alguns metros de cantoneiras de 1" X 1/4" de uma janela ou portão desmontado e uns pedaços de ferro de construção de 3/8".


Cantoneira e chapa dobrada em U com 130 X 7 X 3 .

  • A propósito, tem lei idiota para tudo, como tem idiota para todas as leis também. Por que não fugir um pouco do normal e padronizar todas estas medidas em um só sistema, seja Imperial, seja Internacional. Já fizeram isso com nossas tomadas, e custou uma nota trocar tudo aqui em casa, agora bem que podiam abolir o império e terminar com essa coisa de tubos, ferros e cantoneiras em polegas, parafusos, então, nem se fala, porque o passo de um parafuso métrico é diferente do passo do parafuso em polegadas e as porcas de uns não servem nos outros, embora os dinâmetros sejam praticamente os mesmos.

Feito o protesto anti-imperial (que a força esteja com você),  resta por todas as coisas junto. Primeiro bati duas a duas as chapas dobradas, uma contra a outra encaixando-as para poder soldar a mesa de suporte da motosserra e o pé da frente; depois cortei a cantoneira no meio e fiz as duas pernas traseiras com aproximadamente 80 cm cada uma e as soldei na mesa conforme a segunda foto, por fim o pé da frente foi soldado:



Chapas batidas e soldadas.


Pernas soldadas

Cavalete tomando forma.

Claro que ficou inclinado, mas a sobra do pé da frente é importante, porque dela saiu o braço que foi soldado na frente da mesa, onde fica a haste que aciona o ferro do acelerador.


A sobra do pé foi cortada para nivelar a mesa e rendeu o apoio do acelerador.
Lembram-se das abraçadeiras metálicas do primeiro cavalete? Pois é, quem guarda tem... fui no lixo e peguei uma das mais largas e cortei sua aba para usar em baixo da motosserra como calço de nivelamento, já que a outra parte em "L", após fazer dois furos para fixar os parafusos do sabre, foi soldada para apoiar e fixar a motosserra sobre a mesa do cavalete.

Com o pedaço de ferro de construção de 5/8" foi possível dobrar um "U" com uma perna bem maior. A perna curta virou o acionador do gatilho da motosserra e note que o ferro foi transpassado na mesa do cavalete por dois furos, para logo depois ser novamente dobrado no local mesmo (usei um cano por fora dele) afim de que voltasse para baixo e pudesse ser amarrado ao acionador do acelerador por uma corda que depois de algumas tentativas e erros permitiu um bom ajuste da aceleração.

Abaixo o cavalete com a motosserra. O ferro preso no braço que aciona o acelerador é uma antiga navalha de cortar papel reaproveitada, mas o importante é que seja algo curvo para ser suave e progressivamente empurrado pelas toras de madeira e acelerar a corrente na medida da necessidade.

Ele está amarrado ao ferro do acelerador que aciona o gatilho da motosserra, se der um zoom na foto vai ser possível ver que há um arame moldado a giza de mola amarrado na perna do cavalete e no ferro do acelerador para fazer o retorno e ele é muito importante, pois faz com que a corrente pare desacelerando o motor depois que a madeira foi cortada.

Cavalete de corte.

No detalhe está o ferro do acelerador que aciona o gatilho da motosserra, note que foi preciso uma cinta plástica pequena para liberar a trava do gatilho da motosserra e ela deve ficar frouxa apenas o suficiente para correr para trás quando for necessário religar o motor. Há uma segunda cinta para fixar o cabo da motosserra à mesa, pois o sistema anti-vibração dela impedia o correto acionamento do gatilho pelo ferro do acelerador.

Detalhe do acionamento do gatilho.

"Pulo de Gato" Como fixar a motosserra pelo sabre.

Depois vou colocar fotos, mas não são necessárias para entender o processo:

Os parafusos do sabre da minha motosserra são do Sistema Internacional, tipo M8 , ou seja, oito milímetros de diâmetro e eles têm um passo (distância entre as cristas e vales das roscas) conhecido como rosca fina. Como são curtos, para fixar a motosserra direto na chapa soldada do cavalete, precisava de espaçadores que enroscassem neles e deixassem uma outra ponta para fixação.

Procurei muito e não encontrei nada que servisse, talvez uma porca dupla M8 resolvesse a questão, mas sempre que "tinha, tava em falta...", assim ou eu mandava tornear e ia ser mais caro, ou adaptava algo.

A solução foi comprar duas porcas de sabre novas e soldá-las em porcas de junção de barras roscadas de 5/16" do Sistema Imperial. Elas possuem perto de três centímetros de comprimento e caem como uma luva na função de espaçadores, pois seu diâmetro interno de rosca é 7,94 mm.

Assim, não foi difícil soldar uma na outra. Bastou usar um parafuso M8 qualquer para enroscar a porca do sabre (M8) e depois a porca de junção de barra roscada (5/16") até umas duas voltas e meia, forçando um pouquinho. Com a porca do sabre tocando na de junção e ambas alinhadas pelo parafuso a solda não teve erro e ficou bem resistente.

Para fixar tudo no cavalete basta enroscar o lado da porca de sabre no parafuso da motosserra e na outra ponta do espaçador enroscar o parafuso 6/8" através do furo da chapa de fixação soldada no cavalete e para evitar que a vibração afrouxe as porcas se usa uma arruela de pressão.


É isso, e como não fiz para vender, se alguém quiser alguma informação a mais é só perguntar.

SERRE-SE!






domingo, 19 de fevereiro de 2017

Moisés sem o cajado morria afogado!



Faz tempo que não incorporo o Pastor Alemão neste blog, que permanece bem desbalanceado! Desta forma vou discutir um pouco de manejo seguro de ovinos, ou sem stress, ou humanitário, como queiram e isto não tem nada haver com Moisés, mas muito com seu cajado.



São informações e aprendizados que julgo interessantes, alguns bem óbvios, mas a maioria deve ser útil. Quando vieram de fontes virtuais foram testados na prática, mas há ensinamentos vindos de outros pastores mais experientes e caprichosos que eu, além de umas poucas, mas valorosas coisas que aprendi direto na lida, quebrando a cara e às vezes algum animal azarado...

Faço isso porque não é raro observar manejos mais ou menos violentos, com latidos, gritos e força bruta, seja na vida, seja no "ioutubs", independente do animal, essas "farras" são a prova da imaturidade da nossa pecuária. Evoluir é necessário e urgente.

É claro que, por vezes,alguma intensidade é necessária na lida com animais, o problema está na frequência, pois ela produz a regra e acaba por inviabilizar um manejo racional, humanitário, sem stress desnecessário para o animal e para o seu tratador. Pode parecer lorota, mas não é raro animais com o palato rompido pelo aparelho que aplica o vermífugo oral, dada a brutalidade do operador, possivelmente acostumado mais aos bovinos, além disto, os ovinos têm dentes e é bom que os mantenham! Fica este alerta!

Dicas práticas:

  • Ovinos são desconfiados e medrosos por natureza, tu não precisa piorar isso.
  • Cães sem treino são um inferno. Aprendi que nem todos são capazes de ajudar no manejo com ovelhas e as raças só ajudam, mas não resolvem o caso por si. Ou o cusco é bom, ou deixe-o em casa, isso também previne a Cisticercose - duas cabeças nem sempre pensam melhor que uma.
  • "Adestrar” o pastor é a parte mais difícil do adestramento do cão. 
  • Se houver bois e vacas na propriedade desista do cachorro com as ovelhas, não vai funcionar e será um milagre se o mesmo não se aplicar aos humanos.
  • Tenha pelo menos uma mangueira (ou seringa) e um curral específico para os ovinos.
  • Trabalhe na sombra, é melhor para todos.
  • Só dê injeções em animais imobilizados, caso contrário a chance de furar seu dedo é grande.
  • Ovinos pastam mais de manhã bem cedo e no final da tarde, evite estes dois horários para manejá-los e o meio no verão.
  • Miíase mata um ovino em poucos dias se ocorrer em local bem vascularizado (escroto), no verão repasse todo rebanho uma vez por semana quando estiver muito quente. Machos sempre brigam e dão mais trabalho com isso.
  • Só um idiota acredita que ovinos gostam de pasto baixo, eles gostam é de pasto novo, por isso comem o rebrote, acerte seu pastejo e preserve sua pastagem.
  • Cercas elétricas são boas no verão e outono, depois que a lã cresce fica bem difícil e menos que quatro fios é por dinheiro fora.
  • Sombra, sal e água a vontade.
  • Ovinos podem compor sistemas agroflorestais, só tem um segredo: sem pasto bom o suficiente eles levantam a cabeça e comem as árvores, a culpa será sua, lembre-se. Oliveiras não dá certo, eles acham melhor que pasto, nem tente.
  • Tentei usar homeopatia para a vermifugação, depois de muito ligar, perguntar e fazer as contas tive que desistir. Estou esperando eles baixarem o preço abusivo e criarem vergonha para ajustar a dose cientificamente, porque a diferença entre a mínima e a máxima chega a ser mais de 50% sem explicação e isso é muito dinheiro para jogar fora - ou dar de graça para eles. 


Então, para esta primeira conversa, como abordar um ovino, a aproximação para condução e a imobilização sentada e derrubada. Destaque especial a um instrumento inexplicavelmente fora de moda: o cajado.

Zona de Fuga

Na bibliografia estrangeira há o termo “Flight Zone” que no Brasil chamamos de Zona de Fuga e é o princípio mais básico do manejo racional de animais gregários como ovinos, caprinos e bovinos.

A Zona de Fuga possui um raio variável de animal apara animal e do próprio animal em diferentes momentos, porque todo ser vivo é único e tem sua personalidade influenciada pelas circunstâncias e experiências. Animais pastando tranquilos tem uma Zona de Fuga menor que animais estressados por terem sido tocados aos gritos e latidos (30 minutos é o mínimo para um animal voltar a ficar calmo) e os animais que vivenciam frequentemente a presença de um pastor que age com calma e segurança tendem a ter uma Zona de Fuga bem menor do que animais criados extensivamente e ou tratados com rudeza.

Todo pastor quando entra no um curral onde está seu rebanho sabe que logo será cercado por ele porque todos os animais vão tentar mantê-lo a vista e a uma distância que julgam segura, os mais mansos bem perto, os outros o mais longe possível. Ele também sabe que ao se mover o rebanho irá no sentido oposto ao seu - é a Zona de Fuga e o Ponto de Balanço (ou Equilíbrio) em funcionamento.

Na Zona de Fuga é onde se faz a abordagem do animal, ela fica no seu entorno e ao ser ultrapassada, dependendo do animal, seu grau de stress e mansidão, do ângulo e da velocidade com que a pessoa se aproxima, o animal reage de uma forma específica. O estudo original da pesquisadora Temple Grandin que descreveu pela primeira vez estes comportamentos foi traduzido para o espanhol sob o título de "La Zona de Fuga y el Ponto de Balance: como entenderlos" e pode ser baixado. Leia sem medo.

Seu princípio básico é a localização do Ponto de Balanço que fica situado no meio do animal: quando uma pessoa entra na Zona de Fuga por um dos lados frontais do animal ele buscará se afastar indo para trás, mas ao ultrapassar o Ponto de Balanço ele tenderá a caminhar em curva aberta no sentido oposto ao deslocamento da pessoa. 

Na imagem abaixo, obtida do manual Safe Sheep Handling, editado pelo Governo da Nova Zelândia em 2014, está reproduzido o desenho original da pesquisadora. O círculo vermelho é a Zona de Fuga, e como foi visto, ela delimita a tolerância do animal a aproximação de uma pessoa. Nela há duas linhas tracejadas: uma que se estende pelo lombo, dos olhos (0°) até o rabo (180°) e outra perpendicular que sai da metade do animal, no cruzamento de ambas fica o Ponto de Balanço.

Ângulos para abordagem

O ovino possui uma zona cega de aproximadamente 30° atrás de si, logo a aproximação para uma imobilização segura deve privilegiar esta zona, assim como o silêncio e o contra o vento. Isto reduzirá a instantaneamente a Zona de Fuga.

Um pastor que se aproximar por trás de um animal o manterá parado se o fizer pela zona cega, mesmo que invada a Zona de Fuga um pouco e se ele chegar até no limite da Zona de Fuga sem invadi-la, mesmo que em um ângulo aberto, o animal permanecerá parado, o pastor terá ainda o limite máximo de aproximação mantido até o ângulo fechado de 150° da Linha de Balanço lombar, ou 60° da linha de Balanço Perpendicular, conforme está na figura. Este procedimento não é exato, mas em condições normais de um manejo tranquilo, sem latidos, cavalos e berros funciona bem e é uma informação valiosa para melhorar a eficiência da laçada ou do uso de um cajado.

Se o objetivo da aproximação for mover o animal para um objetivo a frente, o pastor deve atingir a Zona de Fuga abordando o animal por trás em um ângulo mais aberto, acima de 135° da linha do lombo, ou 45° da linha perpendicular (posição B da figura). Se ele não se aproximar muito rápido e não se aproximar muito o animal não vai disparar, apenas começará a se mover para frente buscando manter a distância de fuga, mas tomando uma trajetória curva e bem aberta para o mesmo lado do pastor que se aproxima. Enquanto o pastor mantiver o passo e a distância, sem ultrapassar o Ponto de Balanço, o animal se moverá para a frente. Quando quiser parar o animal basta que saia da Zona de Fuga em ângulo mais fechado (posição A da figura).

Quando o pastor aborda o animal de frente nos mesmos ângulos o o resultado tenderá a ser o mesmo, exceto que o animal vai se afastar andando para trás, também em curva, guardando a distância de fuga, até o momento em que se virar e se afastar mais. Se a abordagem ultrapassar o Ponto de Balanço o animal tenderá a se mover no sentido oposto ao do deslocamento do pastor e passar pelo seu lado também abrindo distancia.

Uma abordagem direta e de frente, no sentido do eixo lombar, fará o animal recuar em linha reta assim que sua Zona de Fuga for invadida e se o pastor parar assim que a Zonha de Fuga esteja livre o animal parará, caso o pastor ande para trás o animal tenderá a caminhar para frente novamente. Se o pastor abordar o animal também pela frente, mas em ângulos mais abertos, a tendência do animal, como foi visto, será andar para frente e escolher o lado oposto do pastor para passar, mantendo a Zona de Fuga desimpedida.

Lembrar que ovinos são gregários e os rebanhos possuem sinuelos (lideres dominantes) é algo extremamente útil e eficiente para deslocar um rebanho a um objetivo, bastam um pastor e um ajudante:
  • O pastor toca repetidamente o sinuelo usando o Ponto de Balanço do animal e logo mais atrás o ajudante faz o mesmo com o rebanho.
  • O pastor caminhar para o objetivo executando primeiro um afastamento do sinuelo, depois se aproxima perpendicularmente até o limite da Zona de Fuga e começa a se mover no sentido oposto ao seu objetivo. Isso faz o sinuelo se deslocar para o local desejado.
  • Ao mesmo tempo o ajudante, mais atrás, repete os movimentos do pastor numa escala menor para usar o Ponto de Balanço do rebanho. Ele se desloca primeiro para frente e para longe do rebanho até achar sua metade, então se aproxima perpendicularmente até o limite da Zona de Fuga e passa a caminhar para dentro dela no sentido oposto ao do rebanho, fazendo-o continuar a se movimentar no rumo do sinuelo.


Cajado

Uma Zona de Fuga não pode ser medida com exatidão, como foi visto, corre que no caso de ovinos e caprinos o conhecimento histórico se encarregou de estimá-la e assim podem ser ser evitados aqueles argumentos meritórios irritantes tipo “só quem tem prática”, “sem experiência não é possível”, etc.

Desde bem antes de Cristo o homem pastoreira estes animais e se sabe que os pastores sempre carregavam um bastão para corrigir o comportamento dos animais e um cajado para salvá-los e manejá-los.

O cajado mais famoso é o de Moisés, que virou cobra, mandou as dez pragas para o Egito, tirou água de pedra e abriu o Mar Vermelho para dar passagem aos judeus em êxodo. Inclusive dizem que nem era exatamente dele, mas de Adão, e fora feito de um galho da árvore do conhecimento, presenteado por Deus antes da condução coercitiva...

O importante é que há referência a ele na Bíblia, no Torá e no Alcorão e assim, talvez ele seja um dos poucos consensos da história ocidental, embora exista dúvidas se era “mish` enah” (cajado) ou “shebet” (vara), pois está registrado nos Salmos o que Davi disse:

“Ainda que eu ande pelo vale da sombra tenebrosa, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; tua vara e teu bastão são as coisas que me consolam” (Salmo 23:4).

Fiquemos com o cajado, afinal, segundo o Alcorão, Moisés foi perguntado por Deus (sei lá porque, já que é onisciente) sobre o que trazia na mão e respondeu desaforadamente para o arbusto em chamas: 

“É o meu cajado, sobre o qual me apoio, e com o qual quebro a folhagem para o meu rebanho; e, ademais, serve-me para outros usos.” (Alcorão 20:18).

Destarte nos escritos sagrados não se encontrem referências sobre seu tamanho, em 2002 Graham Phillips escreveu um livro chamado “The Moses Legacy” no qual assevera que o cajado de Moisés se encontra no Museu de Birmingham e pertenceu a um egípcio chamado Tuthmosisos que fez gravuras nele.

Inscrições egípcias de no cajado de Moisés.

Mesmo intrigado por Moisés ter precisado do seu cajado para atravessar o Mar Vermelho, depois que saiu do Egito e nada indica que ele o tenha deixado para trás, o que importa no caso é sua medida de 3 côvados (a distância entre o cotovelo e o dedo médio), mais ou menos um metro e trinta e cinco centímetros.

Cajado do Museu de Birmingham  

Isso dá na altura do coração de alguém que tenha a estatura de um metro e sessenta centímetros, possivelmente a média das pessoas daquela época, quando não havia muita comida, embora fosse uma alimentação bem mais saudável.

Seguindo as proporções do Homem Vitruviano de Leonardo Davinci, para encontrar a medida da Zona de Fuga de um ovino ou caprino, basta lembrar a altura é igual a largura dos braços abertos e a cabeça corresponde a 1/8 de sua altura total.

Homem Vitruviano

Fazendo as contas e considerando que Moisés não devia ter muito mais que um metro e sessenta mesmo, seu cajado seguro pela mão perto da extremidade devia ter um raio de ação de aproximadamente dois metros, e com o corpo inclinado uns 45° para achar o alcance máximo é possível que capturasse animais distantes a um pouco mais de dois metros e meio.

É razoável crer, então, que a Zona de Fuga dos ovinos e caprinos daquela época girasse entorno de dois dois metros, talvez um poco menos, mas como hoje, tanto os ovinos quanto os humanos estão maiores, não parece impossível que esta medida tenha se alargado um pouco.

De qualquer forma, até onde foi possível descobrir, o cajado foi razoavelmente aprimorado ao longo do tempo, e sua forma original, levemente curva em uma das pontas, útil apenas para trazer o animal para o alcance das mãos, evoluiu para o formato de um gancho, capaz de prender um animal pelo pescoço (ou patas). Há, também, modelos com uma ponta para cutucar e outros com o gancho menor e mais fechado na outra ponta,para usar nas patas. Além disto, por força da ergometria, já que ficamos mais altos, é justo os cajados modernos ganharem mais mais alguns centímetros, mas sem os exageros dos filmes bíblicos, pois algo com mais de dois metros me parece servir apenas para a defesa pessoal, e um cajado jamais pode ser pesado.

Na internet é possível encontrar cajados para vender, embora não existam muitas opções. Estes modelos de alumínio da foto não são muito caros e curiosamente podem ser encomendados com o gancho para pescoço, para patas (menor), ou mesmo com os dois ganchos - como os caprinos sempre ficam encarando, é possível que este gancho menor (que pode ter uma trava) se lhes aplique bem.

Cajados Brasileiros

Como não achei nenhum de madeira, clássico como eu gosto, num futuro e incerto post será possível mostrar como se pode fazer um cajado usando madeira verde curvada com vapor, afinal, todo pastor que se dê valor deve ter o seu cajado personalizado conforme a sua altura, força e magia, claro. Já os preguiçosos e ricos podem importar um da Wolston.




Cajados maiores para pessoas mais baixas e vice e versa, pois o raio de ação do conjunto pastor-cajado não precisa ser muito maior que 2,5 metros.

Tendo isto em mente, é fácil dimensionar um um bom cajado de trabalho: o pastor ao levar as mãos a boca para assobiar para o cachorro, deve poder pendurar o cajado no seu braço dobrado sem que ele toque no chão e lhe atrapalhe, ou se preferir mais comprido, ao encostar o nariz no cajado, a parte superior do gancho não deve ultrapassar a altura dos olhos. 

Em centímetros se está falando entre 140 e 165 para um pastor de estatura mediana perto de um metro e setenta centímetros. O mais comum são os cajados escutarem o coração de seus donos quando de pé, eles o encostarem no seu peito.

Um gancho com um palmo de diâmetro por fora e dois centímetros e meio de espessura deve servir para todas as situações, exceto para enganchar pelas pernas. Moldá-lo levemente deslocado, mais estreito na entrada e a ponta um pouco curvada para fora o torna mais eficiente. Em termos gerais, a entrada mais estreita do gancho de pescoço deve estar entre 8,5 e 10 cm e no caso do gancho para patas entre três centímetros e meio e cinco. 

Um detalhe histórico: afinar a ponta e dobrá-la para cima até formar um ganchinho permite pendurar a lanterna e o manto.

Pega

Alguns tratamentos e inspeções expeditas no rebanho não requerem o manejo dentro de mangueiras, sempre estressante, mas currais são importantes, porque os ovinos tendem a ficar parados quando encostam na cerca, e melhor, tendem a se agrupar nos cantos, facilitando a abordagem.

Caso tenha um laço bom e saiba o que fazer com ele só precisa ler o resto se for uma pessoa muito esquecida a ponto de deixa-lo vez ou outra no galpão, porque agarrar a unha é uma opção radical, porém sempre disponível, mas que deve ser feita com cuidado.

Agora preste atenção: é importante que o sucesso de pegar o animal ocorra na primeira tentativa, pois as demais serão cada vez mais difíceis, já que o animal vai ficando mais estressado e mais assustado, assim como o restante do rebanho, logo, se não souber laçar bem é melhor ir diretamente para a unha se não tiver outra opção melhor.

Há duas possibilidades com mais eficácia para agarrá-los a unha. Se chega por trás, cuidando o ponto cego e o agarra pelas ancas, num bote, para em seguida ladeá-lo contra o corpo e agarrar o pescoço por baixo, envolvendo-o com os braços. Muito cuidado para não puxar pela lã e se errar o bote, melhor soltar o animal que fazê-lo sofrer arrancando tufos. Ou então se toca o animal até um canto da cerca e de braços abertos (melhor duas pessoas, ou segure galhos para aumentar sua arcada) se aproxime vagarosamente pela frente até que ele tente furar o espaço entre você e a cerca, neste momento, com alguma agilidade e muita sorte é possível agarrá-lo diretamente no pescoço e em seguida por uma mão em sua virilha e imobilizá-lo contra o corpo para fazer a derruba. Este procedimento é mais seguro para o animal, só é mais difícil também.

Mas há o cajado, claro, e tal como o laço, se não for esquecido pode resultar em bom proveito: quem não tem cão caça com gato e quem não laço dá cajadadas, mas cuidado para não matar os “coelhos”.

As técnicas são as mesmas para se agarrar a unha, com preferência para a abordagem frontal, e o alvo será enganchar o pescoço do animal, por isso o gancho cajado deve ser largo o suficiente para que o animal gire dentro dele, mas também deve ser um pouco mais estreito na sua entrada para dificultar a fuga. Usar o cajado nas patas é possível, mas ele deverá ter um gancho menor, e não creio que animais maiores resultarão em boa coisa. Cuidado com uberes e escrotos.

Sobre cajados e seu manejo com ovinos há um belo depoimento e uma rápida demonstração neste vídeo:

 https://www.youtube.com/watch?v=xTJbvw3Cps4 


Após um curto período de aprendizagem a eficiência do cajado deve ser bem maior que a da unha e ainda há vantagens extras: além do seu stress e dos animais ser evitado em grande parte, tanto na ida quanto na volta da lida um terceiro apoio ajuda a eliminar perto de 30% do esforço dos joelhos, segundo os peregrinos que entendem muito de caminhar; e como a gente sempre se quebra nestes rodeios ele dá uma boa muleta, nos casos graves serve de tala e já é meia padiola, além de que pode substituir a cruz do descanso do pastor...

Imobilização

Após a pega é possível imobilizar o animal sentado-o nos seus pés, o que permite examinar rapidamente o peito, onde frequentemente ocorrem miíases, o úbere e o aparelho genital, e fazer o casqueamento, melhor com ajuda de alguém.

Neste caso a pessoa se arqueia sobre o animal e o levanta contra as pernas, segurando suas patas, depois é só segurar seu pescoço como mostram as fotos abaixo do site do Milkpoint e se o animal for redomão e espernear muito, basta dobrar seu pescoço como na última foto, que ele se entrega. 

Imobilização sentado

No mercado exterior há essas cadeirinhas. Não sei porque não são feitas no Brasil, afinal nossos empreendedores sabem copiar tão bem quanto os chineses, mas de qualquer forma fica a dica e qualquer serralheiro faz uma brincando, assim como qualquer ser humano com alguma noção do tamanho de uma ovelha faz seu projeto. Eu fiz uma de madeira, na tosqueira mesmo, que já quebrou de tanto uso e assim que eu conseguir uma máquina de solda vou fazer uma decente, pois é bem útil, só dá muito trabalho para encaixar o bicho nela, depois é beleza.


Cadeirinha

Derrubamento

Para outros procedimentos, como injeções, aplicação de unguentos, tosa da barrigueira para deixar o úbere a mostra, ou animais maiores é necessário imobilizá-lo com derrubada.

Após o animal estar imobilizado, com uma mão na virilha e outra por baixo do focinho, se força o animal contra as pernas e ao mesmo tempo se puxa a mão da virilha para coma e se torce o pescoço para fora, fazendo-o dobrar um pouco. O animal pende para trás quase instantaneamente e arqueia as patas traseiras perdendo o equilíbrio. Basta força-lo, então, contra o chão e ele vai deitar de lado, esperneando um pouco - como sua cara vai estar meio perto cuidado para não quebrar os "óculos".

Neste momento pode ser preciso se agachar e colocar uma canela sobre o pescoço do animal por alguns instantes para de dominá-lo completamente. Normalmente dá para fazer direto o que mosta na última foto: colocar a perna entre a pata dianteira de cima e o pescoço para travá-lo - as são do mesmo site e vale muito a pena ler a matéria inteira.

Derrubamento e contenção

Não tentei essa coisa da foto abaixo, mas este dispositivo parece bem prático para ser utilizado depois que o animal foi derrubado. Também não está a venda no brasil, mas até com ferro de construção se pode moldar um, boa sorte e me conta.

Imobilizador de pescoço.

Fico por aqui nesta hora, sonho que alguma contribuição para a ovinocultura tenha ocorrido e podem comentar a vontade, se a surra não for desmanteladora vou dar sequência na errática deste blog abordando o curral anti-stress, proposto pela americana Temple Grandin, um exemplo de superação para nossos pecuaristas, pois mesmo nascida com o mal de muitos deles, um grave autismo, ela soube como superá-lo e se doutorar em veterinária, algo ainda não visto aqui e neste meio do "agro".

MANEJE-SE e FT!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Forno Pompeii


Forno Pompeii

Nasceu egípcio, cresceu grego e ganhou alma italiana


Os egípcios inventaram o forno. Faziam estruturas mais ou menos cônicas, com tijolos de adobe cozido do barro do que extraiam do Rio Nilo. Achados arqueológicos e fontes históricas indicam que estes primeiros protótipos eram  fornos brancos, ou seja, o fogo era feito em uma câmara separada daquela onde os alimentos eram assados. Curiosamente esta tecnologia está voltando nos fornos contemporâneos que são construídos na parte superior das modernas estufas de massa de queima dupla.


Forno Pompeii

Gregos arquearam sua a cúpula para concentrar o calor irradiado no centro do forno e possivelmente passaram o fogo para dentro do forno, e só mais tarde, os romanos o adotaram e disseminaram esta forma revolucionária de assar alimentos por todo seu império, apenas acrescentando o espaço sobre cúpula para o isolamento térmico.  Como em Roma tudo já acabava em pizza e outras coisas mais, naquela época instituíram a Fornicalia, uma festa comemorada em 17 de fevereiro para a homenagem a Deusa Furnace, protetora dos fornos e do pão e da fornicação no sentido culto...

O forno ganhou alma  e coração italianos no Reino de Nápoles, entre os séculos VI e X, ao permitir a evolução da focaccia e o ressignificado a palavra “pinsa” – equivalente no dialeto napolitano a amassar, esmagar – para a pizza. O coração bateu forte e bombeou massa de tomate e mozarela pelos sete cantos do mundo, elevando a pizza a condição de prato mais apreciado no planeta – mas, há controvérsias, pois o churrasco...


Alma e Coração italianos

Os fornos napolitanos, pela sua natureza, são mais focados na pizza, e por isso tendem a ser, proporcionalmente, mais baixos do que os Pompei, ter cúpulas elipsoidais achatadas (10 a 20 cm de altura) assentadas sobre uma primeira fileira de tijolos dispostos em pé (21 a 28 cm) e por isto refletem calor do teto com mais intensidade. Tratarei deles um dia, assim como de outros modelos.

Interessam, agora, apenas os Fornos Pompeii. Eles possuem o teto mais curvo e um pouco mais alto (5 a 10 centímetros) que os Napolitanos e sob risco de abusar da história, podem ser referidos como tendo a forma de iglu – diga-se de passagem, outra invenção para reter calor.

Forno Pompeii intacto achado em escavações arqueológicas 
Esta estrutura só um pouco diferente lhes dá a vantagem de ser menos especializados em pizza, pois nele entram alimentos com formas mais volumosas, se adaptando melhor ao uso multipropositário do qual as famílias precisam. 

Quem quiser aprofundar o assunto pode buscar na internet o folheto da Forno Bravo “Pompeii Oven™ Plans Version 2.0 Build an Authentic Italian Wood-Burning Oven”.

A forma de iglu é a mais comum no Brasil, normalmente é construída com diâmetro inferior a um metro e, infelizmente, apresenta muitos problemas de rendimento e funcionamento. 

Os fornos esfriam rápido, exigindo muito fogo aceso e assim dificilmente conseguem assar duas pizzas ao mesmo tempo. Com a altura frequentemente exagerada em relação ao diâmetro, há deficiências no cozimento, desperdício de lenha e muita fumaça saindo pela boca. 

Um bom forno familiar deve ser capaz de atender dez ou mais pessoas, assar duas a três pizzas ao mesmo tempo, alojar mais de 10 pães em uma fornada e ser capaz de assar um Peru ou um pernil inteiro. Desta forma ele precisa ter uma base interna com pelo menos 85 centímetros de diâmetro, paredes não muito grossas para que aqueçam até 200 °C em menos de uma hora e seja isolado o suficiente, para manter sua temperatura depois de utilizado, caso seja mantido fechado e abafado (bom forno ter 250 °C 24 horas depois).

Sua eficiência também precisa ser boa, e isto significa um consumo médio de 6 kg de lenha seca por hora, capacidade de assar pizzas em no máximo em três minutos, melhor quando chegar perto de 90 segundos, e atinja e mantenha uma boa temperatura de trabalho acima de 400 °C com pouco fogo em seu interior.

Proporções elementares

A ALTURA interna pode ser calculada usando o raio interno menos 10%. Sua forma, então, se assemelha a uma esfera um pouco enterrada. Se o diâmetro for acima de um metro, o que só é aconselhável quando for necessário fazer quatro ou mais pizzas de uma vez, é melhor usar a medida do diâmetro dividido por 3,4.

Fornos dedicados para pizza (alta temperatura e fogo vivo) são normalmente mais baixos que fornos multipropósito, mas não devem ter menos que 25 cm de altura se forem pequenos - com menos de 90 centímetros de diâmetro, e não menos que 30 cm de altura se forem médios. Isto evita calor de irradiado excessivo sobre a pizza e boa umidade interna.

Uma altura de 40 cm para um forno de 90 cm de diâmetro harmoniza bem as proporções para todas necessidades domésticas, racionalizando o gasto de combustível e facilita o manejo nos vários usos: pizza, pães, bolos, assados e ensopados.

A PORTA de bom tamanho tem no máximo 63% da altura interna do forno e sua largura não influi muito no rendimento, mas no manejo sim, logo deve ter uma largura entre a altura e o raio interno do forno. Se houver um termômetro na porta, ele quase sempre marcará 100 °C a menos do que o piso do forno, mas é a experiência quem vai dizer, ou talvez seja melhor arranjar um termômetro a laser desses baratos.

A Parte de Fora

A CHAMINÉ nunca deve estar dentro da câmara de combustão do forno (mas nunca mesmo), tanto para evitar a entrada de ar frio por ela, quanto a queda de fuligem sobre a comida. Sua melhor posição é sobre a boca de entrada, e neste caso, se a porta for móvel, pode ser colocada antes e depois da abertura de exaustão facilitando muito o manejo do fogo, abafando ou atiçando conforme a necessidade, e nunca se dispensa o abafador na canalização.

Uma chaminé com o diâmetro de 20 cm é aceitável para fornos de até 80 cm de diâmetro, mas a tubulação deve ser reta e alta (3 ou mais metros). Nos fornos com mais de um metro de largura o diâmetro mais apropriado é 25 cm, porém se a tubulação for baixa, ou tiver curvas de 90° talvez seja preciso aumenta-la e isso não se consegue fácil depois, então planeje e projete bem. Apenas no início do aquecimento de um forno frio é aceitável que um pouco de fumaça saia pela boca, mesmo assim deve ter sido colocado muita lenha e muito grossa, para começar.

A BOCA de entrada normalmente tem altura e a largura igual, ou ligeiramente maior, que a porta e liga-se ao forno por um túnel que deve ser maior que o diâmetro da chaminé, sugere-se 5 centímetros pelo menos. É bom que exista um balcão com bastante espaço livre na frente e dos lados da boca para facilitar o trabalho e depositar os instrumentos.

A altura de um forno deve ser acima do umbigo e abaixo dos ombros do operador, óbvio, mas nem tanto… Não menos que 1,1 e não mais que 1,4 metros deve resolver todos os casos, mas se houver um estrado ou algo que aumente a altura do pizzaiolo é bom contabilizar, pois trabalhar muito curvado, com fumaça na cara, ou sem ver bem dentro do forno é desnecessariamente estúpido.

A MESA deve ser sustentada por uma estrutura resistente. Quando o forno pode ter que mudar de lugar, é preferível apoiá-lo em uma estrutura de metal, que até pode ter rodas reforçadas. Quando o forno deve ficar imóvel, basta uma estrutura simples de alvenaria ou blocos de concreto sobre um contrapiso reforçado.

O ISOLAMENTO de um forno é uma etapa crítica de sua construção e bastante cara, mas sem ela dificilmente haverá um resultado bom. Quando bem executado fará com que o forno precise de pouco combustível para atingir e manter a temperatura de trabalho e depois funcionar equilibradamente assando pizzas, no calor pães, bolos e por fim o rescaldo, que é cobrir aboboras e batatas com as cinzas e as poucas brasas que restaram quatro ou cinco horas após.

O caso contrário é triste, mas é frequente. Fornos mal isolados têm que queimar muito combustível e manter, quase o tempo todo, o fogo aceso bem alto, pois a abertura da porta e a movimentação no seu interior a baixam a temperatura interna muito rapidamente. Um forno nestas condições, é quase certo que desgrace seu operador, queimando as pizzas em baixo e no lado mais próximo do fogo, ou deixando a parte de cima e dentro das bordas a massa mole e mal assada.


Quem já comeu pizza assim diz amém, curte e compartilha, mas da próxima vez, xingue o dono, não o coitado do pizzaiolo!





O motivo é o calor mais importante do forno, o irradiado, vir das paredes e do teto, e sem isolamento ele se perder em boa parte para o exterior, sem o que o reflita de volta para dentro. A compensação para isto não existe, mas o senso comum manda queimar mais combustível, porque há a sensação de que o forno esfria rápido, quando na verdade ele não está conseguindo acumular o calor. Ciclo vicioso em vista.

O fogo vivo no interior do forno é um assunto delicado, indispensável para aquecer o forno, se for mais que o necessário para a manutenção da temperatura de trabalho, torna ele a principal fonte de irradiação de calor desastrosamente concentrada e demasiado forte, pois estará perto de 600 °C ou mais, quando um forno bem quente opera no máximo a 500 °C. O fogo também aumenta o calor transmitido por condução da base e assim o que estiver em contato com ela vai queimar. A convecção da massa de ar dentro do forno também aumenta, e será como se jatos quentes caíssem sobre os alimentos, derretendo os ingredientes mais úmidos, uma lambança, e as pizzas ficarão parecendo uma sopa. Se espera, também, muita fumaça, o que acabará por obstruir a chaminé com o creosoto resultante da queima e empestando o ambiente.

Este caos infelizmente não é muito raro no mercado nacional de fornos pré-moldados e são poucos os modelos com algum isolante misturado no concreto das paredes e da base, ou que venha acompanhados de instruções para o isolamento térmico. Quem quer um forno, de alguma maneira está sovando seus sonhos e possivelmente estará com as guardas baixas para os “especialistas” de plantão. Cuidado! E não adianta muito perguntar para quem comprou um forno destes, todo mundo mente segundo o Dr. House.

Na internet são poucos os fabricantes que distribuem informações completas de montagem e isolamento, a maioria ou não divulga nada, ou apenas mostra como é a montagem das peças pré-fabricadas, possivelmente para dar a impressão de que seu forno é tão bom que não precisa de mais nada: é instalar e usar. Não admira que depois de mal instalados, sem isolamento decente e canalização apropriada, muitos fornos funcionem de forma sofrível, queimando as bordas dos sonhos, deixando cru o miolo da vontade de fazer pizzas e pães, até serem abandonados depois de tanta frustração e defumação. Talvez por isso, inconscientemente muitos já sejam construídos nos cantos...

Não existe um método melhor de isolamento, existem métodos mais adequados para o objetivo do forno, pois o isolamento de qualidade é bem caro, e excessos, embora não piorem nada, serão desperdícios, pois haverá pouca utilidade no seu resultado.


Vermiculita, Perlita, Argila, Lã de Rocha e Fibra Cerâmica

Uma opção frequente em fornos domésticos (uso esporádico e curto) bem construídos - especialmente se a forma arredondada é valorizada, seja pela estética, seja por algum desejo “atávico” do que se acredita terem sido os antigos “fornos caipiras” de barro e ou tijolos que nos inventam muitas lembranças - é isolar as paredes recobrindo-as com uma manta lã de rocha, melhor se tiver sete ou mais centímetros de espessura e uma face aluminizada que fica para fora (em casas de produtos refratários podem ser compradas por 20 dólares o metro quadrado). Basta, então fixá-la com uma tela de galinheiro e sem apertar, recobrir tudo com uma camada de dois a três centímetros de argamassa, que pode ser a refratária caseira (1 kg de cimento, 3 kg de areia, 300 g de cal e 100 g de açúcar), para depois receber um acabamento ou tinta.

Se o forno for de utilização mais frequente e ou intensiva, vale a pena investir em uma camada extra de concreto isolante sobre a manta de lã de rocha, antes de plastificar com a argamassa e de aplicar um revestimento ou pintar. Para obtê-lo basta misturar 100 litros vermiculita expandida (ou argila expandida) em uma nata de 25 kg de cimento comum misturados a 40 litros de água. A vermiculita é mais ou menos difícil de achar, mas não custa caro, ajuda muito na formação da laje da base do forno e é muito leve (o saco com 100 litros pesa perto de 20 kg).

Em fornos profissionais, ou naqueles que vão apoiar o aquecimento de água da residência, é melhor construir um encoframento para o forno. Esta caixa não pode tocar nas suas paredes afim de ser preenchida com argila ou vermiculita expandidas e areia seca, misturada a um pouco de cimento e água. Antes, porém, o forno deve ter sido totalmente recoberto com uma camada de fibra de cerâmica de dois ou três centímetros de espessura e outra, intermediária, de lã de rocha aluminizada com pelo menos 5 cm de espessura. Da mesma forma que no forno doméstico explicado antes, a face metalizada da manta deve ficar para fora, impedindo, a contaminação das fibras pelos agregados do concreto isolante, e ambas devem ser fixadas, a primeira basta alguns arames e a segunda com tela de galinheiro, sem muita pressão. A cobertura do encoframento não deve ser muito espessa e jamais socada, para não pressionar o material isolante. Entre seu final e a tampa do encoframento pode haver espaço vazio, e é bom que haja.

A Parte de Dentro

As PAREDES, como a base de um forno, devem ser resistentes a temperaturas elevadas e ter massa para armazenar uma grande quantidade de calor (energia), pois contribuem definitivamente para a eficiência geral e são (devem ser!) a principal fonte de calor irradiado. Paredes muito grossas, acima de 15 centímetros, resultam em fornos muito pesados, exigentes de muito combustível, e só se justificam em condições especiais, como padarias ou pizzarias 24 horas. Entre 250 e 350 kg há massa suficiente para um bom desempenho, acima disto começa a ficar difícil e demorado esquentar o forno.

Fornos utilizados sem muita frequência e ou por curtos períodos - uma vez por semana e ou para assar poucas pizzas – podem ter paredes um pouco mais finas, para que aqueçam mais rápido sem ser muito importante que armazenem grandes quantidades de calor. É o caso da maioria dos fornos pré-fabricados em concreto, que têm paredes perto de cinco centímetros de espessura. Nestes casos um isolamento bom basta para manter uma boa temperatura durante o uso com fogo vivo e depois, ainda ser capaz de assar uma fornada de pães ou bolo.

Jamais se usa concreto comum, pois não aguenta mais que 300° sem se degradar, em fornos profissionais pré-moldados é fácil haver paredes de 7, 8 ou mais centímetros de espessura de concreto refratário, que aguenta mais de 1.500°C, aquece mais rápido e perde calor com mais demora (se não encontrar ou achar caro, pode fazer: uma parte de cimento comum, três partes de areia, uma parte de cal e uma parte de tijolos refratários moídos, ou de argila seca misturada com alumina (óxido de alumínio - Al3O2) na proporção de 1:0,8).

Já nos fornos usados pelo menos a cada dois ou três dias e ou por várias horas de cada vez - ou se apoiarem o aquecimento de água - é melhor que tenham paredes grossas (melhor de tijolos) e um isolamento reforçado, assim podem manter um calor razoável por um dia ou dois e economizar combustível quando são reaquecidos. É o mesmo princípio que nos faz manter o refrigerador ligado o tempo todo: gasta menos energia ele ligar várias vezes por pouco tempo, do que desligar quando não tem uso, como de noite, para religá-lo de manhã. 

Quando forem usados tijolos (refratários ou não) é importante ensopar eles antes de assentar e as juntas devem ser quase secas, para que entre eles não haja mais de meio centímetro de espaço completamente preenchido com argamassa refratária, especialmente no lado de dentro, isto evita diminuir a eficiência do forno e rachaduras. Facilita muito cortar os tijolos na metade, porque o ângulo de contato entre eles pode ser mais agudo e se dispostos em cunha ou de ponta, terão a mesma espessura ótima para uma parede de forno, algo perto de 10 cm. Um trabalho simples, feito com serrote velho, que agrega muita praticidade no manejo das peças, na execução dos arcos e muita economia também (um tijolo refratário custa perto de um dólar).

Para colar os tijolos é possível comprar argamassa refratária pronta (baldes de 30 litros por 60 dólares) ou fazer uma caseira bem mais barata, que vai resistir a mais de 900° - uma temperatura alta, só atingida na zona de combustão de fornos bons. Estas receitas não seguem nenhuma norma fixa, são quase magia branca e variam até na composição.

Considere o que quiser, use os seus sentidos e faça o melhor que puder, quase tudo que não for muito absurdo vai funcionar por um bom tempo. Uma sugestão é misturar uma lata dessas quadradas (18lt) - onde vem tinta - cheia com terra refratária (vendida em sacos) a 2 kg da cal e 1 kg de açúcar, e depois adicionar água até formar uma pasta com a consistência de uma geleia.

- Não acho Terra Refratária!

- Não vai cimento?


Calma, os conhecimentos populares são vastos... Use uma lata igual de terra argilosa bem seca misturada com areia média, para corrigir a textura (70% do volume de terra e 30% de areia), e junte 2,5 kg de cimento, 2,5 kg de cal e 1,5 kg de açúcar. Homogenize a seco e depois bata tudo com água até ficar uma pasta fácil de trabalhar. Pronto, não precisa terra refratária, que argila e chamote, ou pó de cerâmica, misturado com areia e um pouco de alumina - as vezes pó de tijolo refratário que deu ruim na indústria.

Sim, e “você pode substituir” a cal por um pouco de detergente comum, de cozinha mesmo, mas ai talvez seja um pouco demais ... mas vai que “cola”.

Quando for utilizar só barro para fazer as paredes, ele também deve ter a textura corrigida para evitar rachaduras, para isso se use areia até uma quantidade em que que comece a ficar difícil se moldar um anel no entorno do dedo (deve ser perto dos 70/30 como disse acima).

É importante adicionar um pouco de palha bem seca e amassar o barro com os pés, pisando sobre uma lona plástica para ser mais fácil de revolver. Isso aumenta a resistência das paredes aos impactos e pressões. A cal pode entrar ou não, mas ajuda a colar tudo e se puser açúcar ficará mais plástico, moldando e grudando melhor - eu acho, porque nunca ouvi falar de "Sugar Cob", só de Pão de Açúcar.

Colocar açúcar nesta massa de barro até parece brincadeira mesmo, mas faz diferença, principalmente nas rachaduras que a cura sempre provoca, mesmo se for bem feita, levando alguns dias com fogo fraco. Não tinha antes e agora também não tem uma proporção fixa para esta massa de barro, nem dá para testar tudo, insista em fazer o melhor, com o que tiver a mão e nas suas condições, porque pior do que fazer um forno na tosquera mesmo, é ficar imaginando como seria o seu forno lindo até morrer.

Algo como quatro ou cinco mãos bem cheias de palha seca e picada, 1,5 kg de açúcar e 3 kg de cal por lata de barro, deve funcionar suficientemente bem após se corrigir a textura da argila com areia e amassar bem, adicionando água até pasta mais dura, pois tem que moldar os Cobs e gruda-los uns nos outros sobre o molde, ou estrutura de madeira.

Na espessura vale o mesmo do tijolo, use 10 ou mais centímetros, e caso vá utilizar a técnica do molde de areia, divulgada no livro-caça níquel “Build Your Own Earth Oven” do Kiko Denzer e da Hannah Field, não esqueça como eles, isole a forma de areia com papel para não quebrar algum dente depois quando a areia desgrudar do teto e cair na pizza...

A Parte de Baixo

Uma boa BASE inicia com uma laje de concreto moldada em toda a extensão do forno e espaço lateral, com ferragem de reforço suficiente nas bordas e em cruz no centro, tudo amarrado - pode ser utilizada tela de galinheiro se a ferragem for mais fraca.

Melhor quando o concreto da laje de base for isolante e tiver pelo menos 10 a 15 centímetros de espessura (15 kg de cimento misturados em 54 litros de água onde se adiciona 100 litros de vermiculita expandida), outra opção é fazer uma laje de concreto simples e fixar, por baixo e sem pressionar, camadas de lã de rocha ou de fibra cerâmica até 10 ou 15 cm de espessura e protegidas por algum material resistente.

Forma perdida quase cheia de Concreto Isolante para mostrar a perfeita amarração dos ferros.

Sobre a laje bom colocar uma camada de areia de pelo menos cinco centímetros, porque ajuda a acumular e a trocar o calor, e na linha das bruxarias, pode ser usado garrafas de vidro bem picadas com ou açúcar misturado, pois estes materiais têm calor específico e condutividade térmica maiores que a areia.

Antes dos tijolos refratários da base interna do forno serem assentados em cunha para garantir uma boa espessura no fundo (ou as peças de concreto refratário do kit), é importante nivelar com areia fina. O assentamento dos tijolos é com junta seca, só se espalha uma nata fina de argamassa para selar elas.

O espaço livre na mesa ao redor da cúpula pode ser coberto com tijolos refratários da mesma forma, ou qualquer outro revestimento, mas deve ficar bem estanque, pois tudo que não se precisa na base de um forno é umidade de infiltração.

Note-se, por fim, que somando tudo, a base do forno completa tem perto de 30 centímetros de espessura (10 a 15 da laje, 5 da areia e 10 dos tijolos) e assim, sua caixa deve ser feita com bordas bem altas para conter todas estas camadas, e a estrutura de suporte do forno precisa prever o desconto desta medida, para que a boca não fique demasiado elevada (acima de 1,4 metros começa a ficar desconfortável).



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Construa-se!